25 de abr de 2012

Livros novos chegam velhos nas Bibliotecas Públicas

Como costumeiramente acontece sempre há um pouco de exagero no título de uma postagem e este não foge à regra. Ao mesmo tempo, a realidade beira o exagero.

Há alguns meses minha preocupação tem se voltado para o que na biblioteconomia chamamos de Desenvolvimento de Coleções. Sendo mais específico, tenho me debruçado (porcamente, admito!) sobre a crítica de livros, sejam eles de literatura, artes, história ou outros assuntos, e o impacto das resenhas e indicações no dia-a-dia das bibliotecas públicas.

O resultado é escandaloso!

Onde trabalho, esse material, principalmente as resenhas publicadas nos cadernos culturais ou em especiais separados em jornais e revistas de grande circulação (Folha de S. Paulo, O Estado de S. Paulo, Veja, Valor Econômico, Revista de História da Biblioteca Nacional, CULT, entre outros) e também a leitura de alguns blogs especializados (os que mais acesso: A Biblioteca de Raquel , Painel das LetrasDigestivo Cultural e o Livros Etc) são uma das ferramentas utilizadas para seleção de obras para aquisição baseada em critérios de qualidade e pertinência, uma vez que normalmente nas resenhas são identificadas as obras ótimas, boas e regulares. Tal procedimento é polêmico, mas diante de um mercado editorial em expansão e que publica, em minha opinião, muita besteira e prioriza modismos literários, não é recomendável e não há dinheiro suficiente para comprar tudo que é publicado.

Sempre quis utilizar as resenhas e recomendações também para divulgar as obras, mas nunca foi possível. Um dia, espero, poderemos ter um blog ou uma área do site, onde juntamente com as informações dos livros colocaremos as resenhas. No mundo físico, expor os livros com as indicações é outro sonho. Sem contar, as próprias indicações de leitores comuns ou conhecidos, além das indicações dos próprios autores.

Mas o problema maior é: depois de lançado um livro ou publicadas as resenhas, quanto tempo leva para o livro chegar as estantes das bibliotecas públicas? Depende! Depende de mais de uma dezena de fatores, resumidamente, eis alguns deles:
- nem sempre o orçamento está liberado no momento do lançamento: isso acontece normalmente entre os meses de novembro a fevereiro, época em que o orçamento de um ano acabou e o do ano seguinte não foi aprovado;
- não é permitido comprar livros de determinada editora antes de 60 dias da última compra;
- as editoras precisam apresentar várias certidões e várias, principalmente as pequenas sempre possuem alguma pendência que as impedem de ter tais certidões;
- as editoras ou distribuidoras devem apresentar as malditas cartas de exclusividade, emitidas normalmente pela CBL (Câmara Brasileira do Livro) e o SNEL (Sindicato Nacional das Editoras e Livrarias), documento que é pago, e é óbvio, algumas editoras se recusam a pagar;
- algumas editoras ao ouvirem que é um órgão governamental que quer comprar, informam que não tem interesse em atender!

Devido a esses problemas, é uma verdadeira loteria informar a um usuário quando o livro solicitado chegará. Ou seja, o cidadão que se interessa por um livro recentemente lançado tem que esperar. E claro, aquele que possui condições financeiras vai na livraria e compra, mas e os que não tem recursos? Ficam na vontade!

Cito 2 exemplos.
Acabei de adquirir o livro "A visita cruel do tempo" da Jennifer Egan, título vencedor do Pulitzer de 2011, lançado em meados do mês de Fevereiro por aqui. Pesquisei nos catálogos das bibliotecas da cidade de São Paulo, na Biblioteca de São Paulo e na Biblioteca Parque de Manguinhos no Rio de Janeiro. Resultado? Ainda não disponível.
Nem preciso dizer que o "O céu dos suicidas", elogiado livro do Ricardo Lísias, lançado há cerca de 15 dias e que comprei no dia do lançamento ainda não chegou em nenhuma delas.

Alguém pode dizer que o importante é a obra chegar na biblioteca, mas fico pensando se não perdemos leitores quando, após saber de determinado livro, o cara vem até a biblioteca e nem ao menos recebe a informação que em 10/20 dias a obra estará à disposição.

Enfim, é preciso criatividade e muita lábia para vencer a burocracia, mas infelizmente predomina o descaso, tirando raríssimas exceções.
Seria ótimo se a Biblioteca Nacional criasse um programa de compra de obras que facilitassem esse processo de aquisição de obras novas.
Especificamente aqui em São Paulo, seria bacana se os editores de alguns dos meios de comunicação citados que recebem das editoras os livros para análise, os encaminhassem para uma biblioteca que se comprometeria a mante-los juntos das resenhas publicadas. Sairiam ganhando as publicações (jornais e revistas), as editoras e principalmente os leitores sem recursos que poderiam consultar em primeira-mão as melhores obras do momento!

Ufa! Isso poderia ser a base para um mestrado que há tempos procuro tema!

24 de abr de 2012

Biblioteconomia nas décadas de 1940 e 1950


Início este blog hoje. Vamos ver se consigo avançar. A idea é publicar achados literários e informações sobre bibliotecas, bibliotecários e assuntos ligados à leitura.

Vamos ao que interessa agora.

Nesta noite de terça-feira fui guardar alguns livros no andar onde estão armazenadas as obras antigas de biblioteconomia da Mário de Andrade. Como é comum, guardei as obras e comecei a garimpagem.

Em meio há uma porção de obras estrangeiras bastante utilizadas no passado, foquei na localização de livros escritos em língua portuguesa. Em meio a vários títulos interessantes selecionados, falarei um pouco de dois deles.


O primeiro chama-se "Regras gerais de catalogação e redação de fichas". Trata-se de um manual de poucas páginas criado por uma comissão da hoje falida Associação Paulista de Bibliotecários, em 1941.

Chama a atenção a equipe que o elaborou, composta simplesmente por Rubens Borba de Moraes (dispensa apresentação), Adelpha Figueiredo (futura bibliotecária-chefe da Biblioteca Municipal e professora do curso de Biblioteconomia), Maria Antonieta Ferraz e Guiomar Carvalho Franco. 

Logo na apresentação, o espirito colaborativo daquela turma salta aos olhos no seguinte trecho: "De acordo com o mandato que recebeu, a comissão não cogitou de estabelecer um "código de catalogação" mas somente normas das principais regras básicas tendo em vista a situação dos catalogadores das pequenas bibliotecas, longe dos grandes centros e impossibilitados de manusear os grandes códigos universalmente consultados".
Ao ler o trecho acima me lembrei da palestra da presidente da ALA (American Library Association), Molly Raphael, ocorrida há poucos dias aqui em São Paulo, onde a mesma desenvolve um programa de mentores, onde os profissionais mais novos tem oportunidade de realizar encontros de várias formas com outros mais experientes.
Enfim, naquela época, mais importante era a colaboração do que a competição, e acredito, sem pieguismos, que foi um dos caminhos para a formação de bons profissionais em um período onde eram poucos e novos os cursos existentes. Aqui na prefeitura isso morreu nos últimos anos, mas tenho visto sinais de renascimento. Que assim seja!


O segundo texto na verdade não é um livro! É um artigo, na verdade uma separata, do Boletim Bibliográfico da Biblioteca Municipal (hoje Mário de Andrade), publicado em 1950. Escrito por Antonio D'Elia da Secção de Expediente da Divisão de Bibliotecas.
No artigo, o autor descreve a necessidade de criar "Um ante-projeto de regulamento para a Biblioteca Municipal de S. Paulo" e logo de cara um dos motivos da criação de tal regulamento era atender aos pedidos frequentes de "solicitação de envio de regulamento da nossa Biblioteca, considerada modelar" pedidos "de vários Estados e de alguns municípios de S. Paulo - e mesmo do estrangeiro".
Do artigo, extenso, poderia destacar vários tópicos mas me detenho a dois trechos:
- A Quarta Parte, discorre a respeito "Do funcionalismo e do "pessoal menor" da Divisão de Bibliotecas". Claro que o pessoal considerado "pessoal menor" me chamou a atenção! Tratam-se de pessoal re-estruturado possivelmente contratado através de outra maneira que a usual à época.
Fica a impressão que desde aquela época o funcionalismo tradicional olhava com olhar torto os contratados de forma diferente do funcionalismo público tradicional. Infelizmente, logo que entrei na Biblioteca notei que alguns bibliotecários tratavam como "pessoal menor" todos os não bibliotecários.... É o preconceito brasileiro sempre à mostra descaradamente para quem quer vê-lo!
- Na Secção V, Da Secção de Biblioteca Infantil (hoje Biblioteca Monteiro Lobato) notei um artigo divertido e por que não bastante ditatorial, ei-lo:
Artigo 20 - De todo livro emprestado é exigida uma síntese, em ficha especial, que registra as impressões do pequeno leitor.
Sensacional, não?!
Além disso, vale a pena consultar as atribuições dadas àquela biblioteca. Não sei se tudo aquilo ocorria, mas era algo muito moderno que incluir: manter um serviço de cinema educativo e recreativo, manter serviço de jogos educativos e recreativos, manter jornal mensal mimeografado, manter um museu de pedras diversas, cartões postais, instrumentos de índios brasileiros, manter o Grêmio Cultural, organizar uma galeria de fotografias autografadas de escritores brasileiros, obtidas pelas próprias crianças e promover excursões e visitas a fábricas, estabelecimentos de ensino, etc.




O que sobrou disso hoje? Visita as bibliotecas citadas e outras públicas pelo país quando puder, tire suas conclusões, compare e proponha algo novo ou uma revisão do que era bom antes e pode ser hoje e amanhã!

Para encerrar, informo que os dois livros e outros que separei estão disponíveis para consulta na Biblioteca Mário de Andrade, na Coleção Geral.

20 de abr de 2012

Monteiro Lobato e o Futebol


O Monteiro Lobato era uma figura.
Passando a limpo a coleção dele por aqui, cheguei ao livro "Literatura do minarete" e fui dar uma olhada em um artigo dele sobre FUTEBOL.
O primeiro paragrafo parece com os dias atuais: garotos deixam de estudar para jogarem e viram os burraldos que conhecemos.
No segundo paragrafo, o Lobato destila seu furor contra vários profissionais que até hoje em dia continuamos a odiar.
Vale a pena lê-lo!

"É uma perspectiva altamente consoladora. É o verdadeiro caminho. É continuando nêle que poderemos no futuro ser alguma coisa. É dando chutes aos 4 anos, marretadas aos 6, fugindo ao matadouro-escola aos 8, que aos 20 anos um homem encontra apto para o "steaple-chaise do struggle for life".
E é dessa raça de gente que precisamos. Menos bacharéis, menos parasitas, menos coronéis, menos deputados, menos promotores, menos esfria-verrumas, e mais "struggle for life", mais "homens", mais fibra, mais glóbulos de ferro no sangue, para que um Camilo C. Branco do futuro não venha repetir que tem nas veias um sangue podre e dentro dos ossos farinha de mandioca".

3 de abr de 2012

Do marketing político para o marketing público em São Paulo

NIZAN GUANAES
O debate municipal é global
O novo ciclo de desenvolvimento do Brasil tem tudo a ver com a cidade de São Paulo
Este é o século das cidades. Das grandes cidades. E, portanto, a era dos prefeitos. Dos grandes prefeitos.
O prefeito de uma metrópole como o Rio é uma personalidade global. É um estadista.
Já, já veremos nascer uma ONU das cidades. E os G8 e G20 das cidades terão tanto poder quanto os agrupamentos de países.
Alguns políticos brasileiros já perceberam isso. Se entrasse na política hoje, eu olharia a carreira de Eduardo Paes, o primeiro prefeito global do país. O homem que colocou o sarrafo da administração municipal lá em cima. Até porque o sarrafo dele é olímpico.
Vejo isso no dia a dia, pois vivo entre Rio e São Paulo. E o que se discute no Rio é o que se discute em Londres, Nova York e Melbourne. O Rio caminha a passos largos para ser a metrópole do século 21. As metas de sustentabilidade do Rio são ambiciosas, claras e factíveis.
São Paulo, que é a cidade maior do país, não pode e não deve ficar para trás, discutindo na próxima campanha eleitoral aquela lenga-lenga de sempre. É obvio que os problemas são os "de sempre". Só que as soluções mudaram, e novos problemas surgiram.
Qualidade de vida hoje em São Paulo é morar perto de onde você trabalha. Só que para isso os nossos candidatos a prefeito devem procurar ouvir a Marisa Moreira Salles e o pessoal do Arq.Futuro, e não apenas as pesquisas de opinião, porque o eleitor não pode antecipar necessidades que não sabe que tem.
Porque não dá pra querer comandar São Paulo sem ouvir o Philippe Starck. Que, aliás, trabalha uma semana por mês em nossa cidade.
Está na hora de termos um plano urbano audacioso e à altura de São Paulo. Algo que traduza e produza a energia e a ambição desta cidade. Um Faria Lima 2.
Que tal chamar o Alexandre Hohagen, do Facebook, o Fabio Coelho, do Google, e usar a capacidade da internet para repensar os serviços públicos e a organização urbana?
A maior empresa americana de pensar fora da caixa, a Ideo, trabalha hoje em São Paulo, seu time é de munícipes do futuro prefeito e vive ajudando as maiores empresas brasileiras a serem mundiais, pensarem de outra forma: inspiraria o debate municipal.
Não é bom ouvir a Cisco, a HP, a Microsoft e a Apple sobre como melhorar o trânsito? Porque a tecnologia pode tirar muito mais gente do trânsito do que a velha engenharia de trânsito. Que tal construirmos um tecnoanel em paralelo ao Rodoanel? E se dermos isenção de impostos para as pessoas trabalharem à noite? Por exemplo, não pagam IPTU. É claro que eu já comecei a falar bobagem. Mas falar bobagem é o primeiro passo para chegar a coisas diferentes e revolucionárias.
Um dos grandes passos é mudarmos do marketing político para o marketing público. O marketing político pensa o eleitor, o marketing público vai além e pensa o cidadão. O marketing político faz a campanha, o marketing público ajuda a pensar políticas públicas. Ou seja, o marketing tradicional pensa na venda, o marketing moderno, na experiência de comprar, no problema, na fidelização.
São Paulo é a cidade mais energética do país. O novo ciclo de desenvolvimento do Brasil tem tudo a ver com a cidade. Seu "cluster" financeiro comanda nossa integração crescente e lucrativa com os fluxos de capital globais. Seus serviços de alta qualidade atraem gente do Brasil todo e de muitos países para seus hospitais, seus ativos culturais e muito mais.
Temos que tirar a arte dos museus e colocá-la nas ruas. Revigorar o nosso centro. Revolucionar a educação desta cidade e botá-la pra concorrer com Xangai e Bangalore.
Enfim, tocar fogo no debate municipal. Para que os mais jovens assistam aos programas eleitorais.
No dia 3 de outubro São Paulo vai eleger seu líder global: o prefeito de São Paulo, o homem que vai nos representar no planeta em plena era das cidades. Que vai conversar com Michael Bloomberg e com o prefeito de Londres. Que vai decidir quantas horas da minha vida eu vou passar no trânsito, o síndico deste megaprédio de 11 milhões de pessoas (um Portugal).
Não há nada de municipal neste debate municipal. Ele é global. É bom os eleitores não esquecerem isso. E os candidatos e seus homens de marketing também.
NIZAN GUANAES, publicitário e presidente do Grupo ABC, escreve às terças, a cada 14 dias, nesta coluna.

Folha de S. Paulo, 03 de abril de 2012.

Apenas um prefeito


VLADIMIR SAFATLE

A pior maldição de São Paulo é seu gigantismo. Por mobilizar um dos maiores orçamento da União, administrar a cidade parece não ser mais algo que tenha valor em si.
Ao contrário, São Paulo é apenas uma passagem, seja para voos mais altos, como a Presidência da República, seja para a utilização de seu peso político na construção de novos partidos, seja para a luta pela construção de hegemonias partidárias.
Há tempos a população paulistana não tem um prefeito, apenas um prefeito -alguém que queira simplesmente administrar a cidade e debruçar-se não sobre as taxas de juros do Banco Central ou dos grandes problemas do país, mas sobre o trânsito infernal da avenida Brasil ou a falta de bibliotecas na periferia.
Não por outra razão, a cidade nunca é referência quando se discute soluções urbanas inovadoras. Não há mais pensamento urbano em São Paulo -isto porque não há um poder público capaz de incentivá-lo e implementá-lo no interior de uma ação integrada de planejamento.
Do ponto de vista da criatividade referente à vida nas grandes metrópoles, São Paulo é uma cidade morta. Seus fios elétricos expostos, seus semáforos que não funcionam e seus ciclistas atropelados lembram como ela está parada no tempo, como alguém que parece desconhecer seu próprio tamanho.
Colabora para isso o fato de, nos últimos anos, o morador da metrópole ter sido obrigado a conviver com a mediocridade administrativa travestida de autossatisfação.
Enquanto as pesquisas eram unânimes em mostrar o descontentamento profundo da população com a metrópole, a ponto de vermos pesquisas em que a maioria dos habitantes afirmava querer simplesmente mudar de cidade, éramos obrigados a ouvir o atual prefeito dizer que daria para si mesmo nota dez. Há de perguntar-se quem precisa de tanta insensibilidade no cerne do governo.
De fato, é difícil para qualquer cidade sobreviver depois de uma série de prefeitos como Jânio Quadros, Paulo Maluf, Celso Pitta e o atual.
Não por acaso, eles representam momentos do desenvolvimento do mesmo grupo político, com concepções muito parecidas para a cidade. Todos eles (à parte Celso Pitta, cuja carreira foi destruída por escândalos de corrupção) entraram na prefeitura olhando para outros mares.
Por isso, a única coisa que a população paulistana pede nessas eleições é que os candidatos mostrem querer realmente administrar a cidade, ter ideias factíveis e detalhadas, do tamanho da real dimensão dos problemas brutais que vivemos no cotidiano.