6 de dez de 2012

Niemeyer e Tia Ester: saudades...

A madrugada de ontem e o dia de hoje trouxeram duas mortes.

A primeira já foi comentada o dia todo e não tenho nada a acrescentar a tudo que foi escrito e continua a se escrever.

Em relação a segunda, a história é diferente.

A Tia Ester é uma desconhecida até mesmo para mim, entretanto, ela era muito citada pela minha mãe e suas irmãs e irmãos. Morava em Pernambuco, mais especificamente na cidade de Arcoverde, no agreste do Estado e foi companheira inseparável de sua irmã, a Tia Olindrina. Esta mais velha que a primeira, ficou sem sua grande companheira depois de cerca de 80 anos de convivência com sua irmã 10 anos mais nova.

Durante a manhã de hoje a emoção acompanhava minha mãe, que como outras quatro irmãs que moram aqui em São Paulo se hospedaram quando moças na casa das Tias Solteironas.
Sim, quando uma mulher na família Viana Dutra demora para casar logo é comparada as duas inseparáveis tias beatas. Sim, elas são (eram) beatíssimas. Em sua última e única visita a elas há poucos anos atrás minha mãe me disse que elas continuavam a maior parte do dia a rezar e rezar.

E como é típico no lado nordestino da família, minha mãe começou a contar uma história, com lágrimas nos olhos naquele tom nostálgico e fala arrastada (nesses momentos o sotaque retorna com mais força):
Perdi a minha tia!
Quando morava com elas (quando moça ela teve que sair da casa da família devido a problemas com a madrasta), a Tia Olindrina, que era mais velha, já era muito católica e não nos deixava sair. Mas eu a Tia Ester costumávamos sair escondidas para ir passear na praça onde ficava o cinema... Minha tia era muito bonita. Também tinha um soldado que gostava dela, mas mesmo assim elas nunca namoraram! 
Vieram somente trechos, mas trechos representativos da sua memória. Memórias íntimas, como alguns tem memórias íntimas também do Niemeyer.
Oxalá a memória de todos que partem fosse tão bem celebrada como nesses dois casos.

Lógico que no pessimismo típico da minha mãe ela encerrou assim: daqui há pouco se vai a Tia Olindrina, depois a Firma (esposa de um tio que mora no Mato Grosso) e eu!

Pois é, tenho a quem puxar em pessimismo e no tom "reclamão" em alguns, ou vários, momentos.

5 de ago de 2012

Encontro com o professor de xadrex

Metaficção elevada a cargas elevadas de potência

Acabara de ler na manhã daquele dia o conto Tólia do Ricardo Lísias, presente na coletânea da Granta. O texto é um tanto estranho, mas essa estranheza me chama sempre a atenção.
E lá estava eu entre as estantes quando me chamam e há uma pessoa procurando os livros do Monteiro Lobato. Lá fui eu em busca do 869.33 L. Claro que me enganei, pois o Loba
to fica no 869.34 L. Era para ser 33, por ele ter nascido no século XIX, mas o dito cujo só publicou no século XX, logo é 34! Mas biblioteconomia à parte, encontrei o livro e bem perto dos livros do meu ainda autor preferido passei pelos outros romances do Lísias e ao citá-lo o sujeito me disse: conheço ele! sou o professor de xadrex dele!
- Acabei de ler o conto da Granta, você já viu? Perguntei.
- Claro! Eu sou o professor de xadrex do livro. Respondeu.
- Mas não exatamente como está lá.
Em seguida ele me deu algumas explicações, me indicou alguns livros, sugeriu a compra de alguns autores que gosta e nos despedimos. Ao deixá-lo em meio às estantes saí estupefato, achando que de alguma forma eu estava adentrando no conto, obtendo outra versão da história contada pelo personagem... ou pelo Ricardo Lisias!
O relato parece sem pé nem cabeça. Mas tem explicação. Como o conto mistura realidade e ficção, o personagem fictício apareceu na biblioteca como sujeito real e eu, sujeito real, por um momento pensei ser ficção.
Para finalizar, como eu sempre digo: eu ganho pouco mas me divirto!

3 de mai de 2012

Amor cego

Eclethion vivia em uma tremenda fossa.
Há meses terminara um relacionamento complicado e além de enfrentar a solidão, sua velha companheira, também estava zerado financeiramente. Sua última paixão havia levado seu pequeno saldo bancário ao limite do cheque especial e seus cartões de crédito estavam bloqueados para novos gastos. Aquilo era uma fossa ou o fundo do poço?
Restou-lhe navegar na Internet para passar o tempo e procurar por novas aventuras, pois também se distanciara de seus amigos durante o infeliz relacionamento.
E foi no hoje velho Orkut que encontrou uma bela e misteriosa loira: 1m65 de altura, cabelo lisinho, pele clarinha sem marcas (pelo menos as áreas disponíveis nas fotos compartilhadas), professora e moradora da cidade litorânea de São Sebastião (é mano, agora que ele iria semana sim, semana não, à praia!). Detalhe: julgou-a misteriosa porque em suas fotos não mostrava o rosto.
Logo, começaram a conversar via MSN e em seguida também por telefone. E nada da danada revelar sua suposta linda face. O máximo que mostrara certo dia foi sua boca. Ah, que lábios, relembrava ele! Mas não havia do que reclamar, afinal, quem vê cara não vê coração e ele sentia que aquele coração era lindo.
Sim, acredite, ele se apaixonara pela mulher sem face!
Durante as conversas, faziam planos sobre o primeiro encontro, o segundo, o terceiro e tantos mais.....
Viveram, à distância, momentos de entrelaçamento profundo. Tanto que certo dia, o pai dela falecera e ela ligou para ele chorando e ele chorou junto.
Parecia que o dia do encontro chegaria cedo e ele poderia consolá-la em seus braços, enxugar de seus rosto suas lágrimas... Eclethion era um romântico.
Dias depois, ela enviou a primeira carta, não uma simples carta, mas uma carta perfumada! Logo, ele percebeu que ela curtia perfumes importados. E foi logo comprando na primeira loja virtual que encontrou o perfume preferido dela. E claro, descobriu que ela gostava de homem perfumado, e foi logo comprando seu primeiro perfume importado. Era um Hugo Boss. E lá foi ele escrever uma carta perfumada também... 
O romance avançava e começou a enviar mais presentes: flores, bombons e mais flores e mais bombons. Escreveu algumas cartas em formato de diários demonstrando que não parava de pensar nela.
Foram momentos inesquecíveis para ele, que não notou que ela, apesar dos agradecimentos, pedia para não enviar tantos presentes. Enquanto ele se aproximava, enviando mensagens e mais mensagens SMS e presentes, ela se afastava. Até que um dia ela pediu para ele se cuidar e procurar um psicólogo, pois ele era muito carente. Ele não a ouviu, mas sentiu finalmente o afastamento. Afastamento que só aumentou nos dias seguintes até ela desparecer de sua vida sem ter nunca revelado sua misteriosa face.
Eclethion manteve-se endividado, solitário e triste.
Mas desde aquela época passou a usar perfume importado e anda cheiroso por aí, espreitando por novas confusões amorosas!

25 de abr de 2012

Livros novos chegam velhos nas Bibliotecas Públicas

Como costumeiramente acontece sempre há um pouco de exagero no título de uma postagem e este não foge à regra. Ao mesmo tempo, a realidade beira o exagero.

Há alguns meses minha preocupação tem se voltado para o que na biblioteconomia chamamos de Desenvolvimento de Coleções. Sendo mais específico, tenho me debruçado (porcamente, admito!) sobre a crítica de livros, sejam eles de literatura, artes, história ou outros assuntos, e o impacto das resenhas e indicações no dia-a-dia das bibliotecas públicas.

O resultado é escandaloso!

Onde trabalho, esse material, principalmente as resenhas publicadas nos cadernos culturais ou em especiais separados em jornais e revistas de grande circulação (Folha de S. Paulo, O Estado de S. Paulo, Veja, Valor Econômico, Revista de História da Biblioteca Nacional, CULT, entre outros) e também a leitura de alguns blogs especializados (os que mais acesso: A Biblioteca de Raquel , Painel das LetrasDigestivo Cultural e o Livros Etc) são uma das ferramentas utilizadas para seleção de obras para aquisição baseada em critérios de qualidade e pertinência, uma vez que normalmente nas resenhas são identificadas as obras ótimas, boas e regulares. Tal procedimento é polêmico, mas diante de um mercado editorial em expansão e que publica, em minha opinião, muita besteira e prioriza modismos literários, não é recomendável e não há dinheiro suficiente para comprar tudo que é publicado.

Sempre quis utilizar as resenhas e recomendações também para divulgar as obras, mas nunca foi possível. Um dia, espero, poderemos ter um blog ou uma área do site, onde juntamente com as informações dos livros colocaremos as resenhas. No mundo físico, expor os livros com as indicações é outro sonho. Sem contar, as próprias indicações de leitores comuns ou conhecidos, além das indicações dos próprios autores.

Mas o problema maior é: depois de lançado um livro ou publicadas as resenhas, quanto tempo leva para o livro chegar as estantes das bibliotecas públicas? Depende! Depende de mais de uma dezena de fatores, resumidamente, eis alguns deles:
- nem sempre o orçamento está liberado no momento do lançamento: isso acontece normalmente entre os meses de novembro a fevereiro, época em que o orçamento de um ano acabou e o do ano seguinte não foi aprovado;
- não é permitido comprar livros de determinada editora antes de 60 dias da última compra;
- as editoras precisam apresentar várias certidões e várias, principalmente as pequenas sempre possuem alguma pendência que as impedem de ter tais certidões;
- as editoras ou distribuidoras devem apresentar as malditas cartas de exclusividade, emitidas normalmente pela CBL (Câmara Brasileira do Livro) e o SNEL (Sindicato Nacional das Editoras e Livrarias), documento que é pago, e é óbvio, algumas editoras se recusam a pagar;
- algumas editoras ao ouvirem que é um órgão governamental que quer comprar, informam que não tem interesse em atender!

Devido a esses problemas, é uma verdadeira loteria informar a um usuário quando o livro solicitado chegará. Ou seja, o cidadão que se interessa por um livro recentemente lançado tem que esperar. E claro, aquele que possui condições financeiras vai na livraria e compra, mas e os que não tem recursos? Ficam na vontade!

Cito 2 exemplos.
Acabei de adquirir o livro "A visita cruel do tempo" da Jennifer Egan, título vencedor do Pulitzer de 2011, lançado em meados do mês de Fevereiro por aqui. Pesquisei nos catálogos das bibliotecas da cidade de São Paulo, na Biblioteca de São Paulo e na Biblioteca Parque de Manguinhos no Rio de Janeiro. Resultado? Ainda não disponível.
Nem preciso dizer que o "O céu dos suicidas", elogiado livro do Ricardo Lísias, lançado há cerca de 15 dias e que comprei no dia do lançamento ainda não chegou em nenhuma delas.

Alguém pode dizer que o importante é a obra chegar na biblioteca, mas fico pensando se não perdemos leitores quando, após saber de determinado livro, o cara vem até a biblioteca e nem ao menos recebe a informação que em 10/20 dias a obra estará à disposição.

Enfim, é preciso criatividade e muita lábia para vencer a burocracia, mas infelizmente predomina o descaso, tirando raríssimas exceções.
Seria ótimo se a Biblioteca Nacional criasse um programa de compra de obras que facilitassem esse processo de aquisição de obras novas.
Especificamente aqui em São Paulo, seria bacana se os editores de alguns dos meios de comunicação citados que recebem das editoras os livros para análise, os encaminhassem para uma biblioteca que se comprometeria a mante-los juntos das resenhas publicadas. Sairiam ganhando as publicações (jornais e revistas), as editoras e principalmente os leitores sem recursos que poderiam consultar em primeira-mão as melhores obras do momento!

Ufa! Isso poderia ser a base para um mestrado que há tempos procuro tema!

24 de abr de 2012

Biblioteconomia nas décadas de 1940 e 1950


Início este blog hoje. Vamos ver se consigo avançar. A idea é publicar achados literários e informações sobre bibliotecas, bibliotecários e assuntos ligados à leitura.

Vamos ao que interessa agora.

Nesta noite de terça-feira fui guardar alguns livros no andar onde estão armazenadas as obras antigas de biblioteconomia da Mário de Andrade. Como é comum, guardei as obras e comecei a garimpagem.

Em meio há uma porção de obras estrangeiras bastante utilizadas no passado, foquei na localização de livros escritos em língua portuguesa. Em meio a vários títulos interessantes selecionados, falarei um pouco de dois deles.


O primeiro chama-se "Regras gerais de catalogação e redação de fichas". Trata-se de um manual de poucas páginas criado por uma comissão da hoje falida Associação Paulista de Bibliotecários, em 1941.

Chama a atenção a equipe que o elaborou, composta simplesmente por Rubens Borba de Moraes (dispensa apresentação), Adelpha Figueiredo (futura bibliotecária-chefe da Biblioteca Municipal e professora do curso de Biblioteconomia), Maria Antonieta Ferraz e Guiomar Carvalho Franco. 

Logo na apresentação, o espirito colaborativo daquela turma salta aos olhos no seguinte trecho: "De acordo com o mandato que recebeu, a comissão não cogitou de estabelecer um "código de catalogação" mas somente normas das principais regras básicas tendo em vista a situação dos catalogadores das pequenas bibliotecas, longe dos grandes centros e impossibilitados de manusear os grandes códigos universalmente consultados".
Ao ler o trecho acima me lembrei da palestra da presidente da ALA (American Library Association), Molly Raphael, ocorrida há poucos dias aqui em São Paulo, onde a mesma desenvolve um programa de mentores, onde os profissionais mais novos tem oportunidade de realizar encontros de várias formas com outros mais experientes.
Enfim, naquela época, mais importante era a colaboração do que a competição, e acredito, sem pieguismos, que foi um dos caminhos para a formação de bons profissionais em um período onde eram poucos e novos os cursos existentes. Aqui na prefeitura isso morreu nos últimos anos, mas tenho visto sinais de renascimento. Que assim seja!


O segundo texto na verdade não é um livro! É um artigo, na verdade uma separata, do Boletim Bibliográfico da Biblioteca Municipal (hoje Mário de Andrade), publicado em 1950. Escrito por Antonio D'Elia da Secção de Expediente da Divisão de Bibliotecas.
No artigo, o autor descreve a necessidade de criar "Um ante-projeto de regulamento para a Biblioteca Municipal de S. Paulo" e logo de cara um dos motivos da criação de tal regulamento era atender aos pedidos frequentes de "solicitação de envio de regulamento da nossa Biblioteca, considerada modelar" pedidos "de vários Estados e de alguns municípios de S. Paulo - e mesmo do estrangeiro".
Do artigo, extenso, poderia destacar vários tópicos mas me detenho a dois trechos:
- A Quarta Parte, discorre a respeito "Do funcionalismo e do "pessoal menor" da Divisão de Bibliotecas". Claro que o pessoal considerado "pessoal menor" me chamou a atenção! Tratam-se de pessoal re-estruturado possivelmente contratado através de outra maneira que a usual à época.
Fica a impressão que desde aquela época o funcionalismo tradicional olhava com olhar torto os contratados de forma diferente do funcionalismo público tradicional. Infelizmente, logo que entrei na Biblioteca notei que alguns bibliotecários tratavam como "pessoal menor" todos os não bibliotecários.... É o preconceito brasileiro sempre à mostra descaradamente para quem quer vê-lo!
- Na Secção V, Da Secção de Biblioteca Infantil (hoje Biblioteca Monteiro Lobato) notei um artigo divertido e por que não bastante ditatorial, ei-lo:
Artigo 20 - De todo livro emprestado é exigida uma síntese, em ficha especial, que registra as impressões do pequeno leitor.
Sensacional, não?!
Além disso, vale a pena consultar as atribuições dadas àquela biblioteca. Não sei se tudo aquilo ocorria, mas era algo muito moderno que incluir: manter um serviço de cinema educativo e recreativo, manter serviço de jogos educativos e recreativos, manter jornal mensal mimeografado, manter um museu de pedras diversas, cartões postais, instrumentos de índios brasileiros, manter o Grêmio Cultural, organizar uma galeria de fotografias autografadas de escritores brasileiros, obtidas pelas próprias crianças e promover excursões e visitas a fábricas, estabelecimentos de ensino, etc.




O que sobrou disso hoje? Visita as bibliotecas citadas e outras públicas pelo país quando puder, tire suas conclusões, compare e proponha algo novo ou uma revisão do que era bom antes e pode ser hoje e amanhã!

Para encerrar, informo que os dois livros e outros que separei estão disponíveis para consulta na Biblioteca Mário de Andrade, na Coleção Geral.

20 de abr de 2012

Monteiro Lobato e o Futebol


O Monteiro Lobato era uma figura.
Passando a limpo a coleção dele por aqui, cheguei ao livro "Literatura do minarete" e fui dar uma olhada em um artigo dele sobre FUTEBOL.
O primeiro paragrafo parece com os dias atuais: garotos deixam de estudar para jogarem e viram os burraldos que conhecemos.
No segundo paragrafo, o Lobato destila seu furor contra vários profissionais que até hoje em dia continuamos a odiar.
Vale a pena lê-lo!

"É uma perspectiva altamente consoladora. É o verdadeiro caminho. É continuando nêle que poderemos no futuro ser alguma coisa. É dando chutes aos 4 anos, marretadas aos 6, fugindo ao matadouro-escola aos 8, que aos 20 anos um homem encontra apto para o "steaple-chaise do struggle for life".
E é dessa raça de gente que precisamos. Menos bacharéis, menos parasitas, menos coronéis, menos deputados, menos promotores, menos esfria-verrumas, e mais "struggle for life", mais "homens", mais fibra, mais glóbulos de ferro no sangue, para que um Camilo C. Branco do futuro não venha repetir que tem nas veias um sangue podre e dentro dos ossos farinha de mandioca".

3 de abr de 2012

Do marketing político para o marketing público em São Paulo

NIZAN GUANAES
O debate municipal é global
O novo ciclo de desenvolvimento do Brasil tem tudo a ver com a cidade de São Paulo
Este é o século das cidades. Das grandes cidades. E, portanto, a era dos prefeitos. Dos grandes prefeitos.
O prefeito de uma metrópole como o Rio é uma personalidade global. É um estadista.
Já, já veremos nascer uma ONU das cidades. E os G8 e G20 das cidades terão tanto poder quanto os agrupamentos de países.
Alguns políticos brasileiros já perceberam isso. Se entrasse na política hoje, eu olharia a carreira de Eduardo Paes, o primeiro prefeito global do país. O homem que colocou o sarrafo da administração municipal lá em cima. Até porque o sarrafo dele é olímpico.
Vejo isso no dia a dia, pois vivo entre Rio e São Paulo. E o que se discute no Rio é o que se discute em Londres, Nova York e Melbourne. O Rio caminha a passos largos para ser a metrópole do século 21. As metas de sustentabilidade do Rio são ambiciosas, claras e factíveis.
São Paulo, que é a cidade maior do país, não pode e não deve ficar para trás, discutindo na próxima campanha eleitoral aquela lenga-lenga de sempre. É obvio que os problemas são os "de sempre". Só que as soluções mudaram, e novos problemas surgiram.
Qualidade de vida hoje em São Paulo é morar perto de onde você trabalha. Só que para isso os nossos candidatos a prefeito devem procurar ouvir a Marisa Moreira Salles e o pessoal do Arq.Futuro, e não apenas as pesquisas de opinião, porque o eleitor não pode antecipar necessidades que não sabe que tem.
Porque não dá pra querer comandar São Paulo sem ouvir o Philippe Starck. Que, aliás, trabalha uma semana por mês em nossa cidade.
Está na hora de termos um plano urbano audacioso e à altura de São Paulo. Algo que traduza e produza a energia e a ambição desta cidade. Um Faria Lima 2.
Que tal chamar o Alexandre Hohagen, do Facebook, o Fabio Coelho, do Google, e usar a capacidade da internet para repensar os serviços públicos e a organização urbana?
A maior empresa americana de pensar fora da caixa, a Ideo, trabalha hoje em São Paulo, seu time é de munícipes do futuro prefeito e vive ajudando as maiores empresas brasileiras a serem mundiais, pensarem de outra forma: inspiraria o debate municipal.
Não é bom ouvir a Cisco, a HP, a Microsoft e a Apple sobre como melhorar o trânsito? Porque a tecnologia pode tirar muito mais gente do trânsito do que a velha engenharia de trânsito. Que tal construirmos um tecnoanel em paralelo ao Rodoanel? E se dermos isenção de impostos para as pessoas trabalharem à noite? Por exemplo, não pagam IPTU. É claro que eu já comecei a falar bobagem. Mas falar bobagem é o primeiro passo para chegar a coisas diferentes e revolucionárias.
Um dos grandes passos é mudarmos do marketing político para o marketing público. O marketing político pensa o eleitor, o marketing público vai além e pensa o cidadão. O marketing político faz a campanha, o marketing público ajuda a pensar políticas públicas. Ou seja, o marketing tradicional pensa na venda, o marketing moderno, na experiência de comprar, no problema, na fidelização.
São Paulo é a cidade mais energética do país. O novo ciclo de desenvolvimento do Brasil tem tudo a ver com a cidade. Seu "cluster" financeiro comanda nossa integração crescente e lucrativa com os fluxos de capital globais. Seus serviços de alta qualidade atraem gente do Brasil todo e de muitos países para seus hospitais, seus ativos culturais e muito mais.
Temos que tirar a arte dos museus e colocá-la nas ruas. Revigorar o nosso centro. Revolucionar a educação desta cidade e botá-la pra concorrer com Xangai e Bangalore.
Enfim, tocar fogo no debate municipal. Para que os mais jovens assistam aos programas eleitorais.
No dia 3 de outubro São Paulo vai eleger seu líder global: o prefeito de São Paulo, o homem que vai nos representar no planeta em plena era das cidades. Que vai conversar com Michael Bloomberg e com o prefeito de Londres. Que vai decidir quantas horas da minha vida eu vou passar no trânsito, o síndico deste megaprédio de 11 milhões de pessoas (um Portugal).
Não há nada de municipal neste debate municipal. Ele é global. É bom os eleitores não esquecerem isso. E os candidatos e seus homens de marketing também.
NIZAN GUANAES, publicitário e presidente do Grupo ABC, escreve às terças, a cada 14 dias, nesta coluna.

Folha de S. Paulo, 03 de abril de 2012.

Apenas um prefeito


VLADIMIR SAFATLE

A pior maldição de São Paulo é seu gigantismo. Por mobilizar um dos maiores orçamento da União, administrar a cidade parece não ser mais algo que tenha valor em si.
Ao contrário, São Paulo é apenas uma passagem, seja para voos mais altos, como a Presidência da República, seja para a utilização de seu peso político na construção de novos partidos, seja para a luta pela construção de hegemonias partidárias.
Há tempos a população paulistana não tem um prefeito, apenas um prefeito -alguém que queira simplesmente administrar a cidade e debruçar-se não sobre as taxas de juros do Banco Central ou dos grandes problemas do país, mas sobre o trânsito infernal da avenida Brasil ou a falta de bibliotecas na periferia.
Não por outra razão, a cidade nunca é referência quando se discute soluções urbanas inovadoras. Não há mais pensamento urbano em São Paulo -isto porque não há um poder público capaz de incentivá-lo e implementá-lo no interior de uma ação integrada de planejamento.
Do ponto de vista da criatividade referente à vida nas grandes metrópoles, São Paulo é uma cidade morta. Seus fios elétricos expostos, seus semáforos que não funcionam e seus ciclistas atropelados lembram como ela está parada no tempo, como alguém que parece desconhecer seu próprio tamanho.
Colabora para isso o fato de, nos últimos anos, o morador da metrópole ter sido obrigado a conviver com a mediocridade administrativa travestida de autossatisfação.
Enquanto as pesquisas eram unânimes em mostrar o descontentamento profundo da população com a metrópole, a ponto de vermos pesquisas em que a maioria dos habitantes afirmava querer simplesmente mudar de cidade, éramos obrigados a ouvir o atual prefeito dizer que daria para si mesmo nota dez. Há de perguntar-se quem precisa de tanta insensibilidade no cerne do governo.
De fato, é difícil para qualquer cidade sobreviver depois de uma série de prefeitos como Jânio Quadros, Paulo Maluf, Celso Pitta e o atual.
Não por acaso, eles representam momentos do desenvolvimento do mesmo grupo político, com concepções muito parecidas para a cidade. Todos eles (à parte Celso Pitta, cuja carreira foi destruída por escândalos de corrupção) entraram na prefeitura olhando para outros mares.
Por isso, a única coisa que a população paulistana pede nessas eleições é que os candidatos mostrem querer realmente administrar a cidade, ter ideias factíveis e detalhadas, do tamanho da real dimensão dos problemas brutais que vivemos no cotidiano.

13 de mar de 2012

Cartão Postal para a esperança

Emergindo da noite intensa
Uma notícia sucedeu
Do interior profundo
A luz esvaneceu.

Perdida depois de partir
Caminhou sem cessar
Por vales escuros e soturnos
Sem luz encontrar.

Em seu próprio caminho
E em seu próprio eu
Se perdeu.

E de lá o que pode enviar?
Um cartão postal foi encaminhado.
Ele é todo negro e vazio.
Mas de lá se espera por um cartão branco de retorno.
Para que?
Para poder escrever uma história nova e conseguir retornar à luz.

14 de fev de 2012

Balada da desilusão















Quando acreditava
naquele
amor
que
nun
ca
ve
i
o


Nada fiz
e não fui
a lugar algum


Eu piamente cria e acreditava
em amor à primeira vista
em amor conquistado
em amor chorado


Era presente para todo lado
E eu presente entusiasmado


Era sofrimento tresloucado
E bolso depois furado


Hoje nada sobrou
Nem amor
Nem dor





e
u



Dedico ao Frederico Barbosa, pois copiei o formato dele, que por sua vez, copiou dos concretistas.
Quem sabe me integro ao concretistas pós romanticos? risos.

7 de fev de 2012

Ode ao calor das mulheres!

Tarde mais quente do ano?
Mal estar? Desconforto?
Puro engano!

Nesse abafado inconsequente
as mulheres, sempre elas,
se aproveitam para se apropriar
dos espaços e das mentes.

Vestindo saias ou vestidos (curtos ou longos, não importa)
desfilam pelas passarelas públicas com seus
Corpinhos, Corpões ou Corpaços
Deixando assim, nós, pobres homens
Totalmente desnorteados e fora de compasso!

5 de fev de 2012

Nova Cracolândia e o acampamento da FLM no Centro de SP

Estava lendo a coluna dominical do Ferreira Gullar, que falava da Bossa Nova, do Concretismo e neo-concretismo, Botafogo, Vinicius quando um amigo mandou um SMS dizendo que estava aguardando o documento que fiquei de entregar para ele.


Apesar de ansiar pelo fim da história do poeta, desci e não quis mais voltar depois da entrega.


Saí mais uma vez a esmo pelas ruas do centro de São Paulo.
Talvez alguém me pergunte: mas de novo?
Tenho que admitir que estou prestes a deixar de morar no centro, e por algum motivo que certamente Freud explicaria se já não tivesse sido comido pelos bichos, essa sanha por andar  por esta região se abate sobre mim.


Ao sair, me deparo com o acampamento do FLM (Frente de Luta por Moradia) e ao passar vagarosamente pelo que parece uma baderna ou um bando de vagabundos como grande parte das pessoas e dos formadores de opinião imagina, vejo um ordem tremenda. As pessoas conversam sério ou riem, ouvem música (nada de Michel Teló ou o novo funk carioca, mas músicas "engajadas"), mas não vejo uma garrafa ou lata de cerveja ou bebida alcoólica alguma, logo, não há aquela fuzarca que vi ontem à noite na região da Joaquim Távora na Vila Mariana, onde se divertia parte da juventude de classe média e rica da região.
Que revolução haveria de os jovens das classes menos abastadas deixassem de beber, fumar e ver tanto futebol para se organizarem.... Não seria preciso criar um mito como o Lula, pois organizadamente, esse pessoal dominaria o país e faria a juventude com mais grana e que só se diverte a repensar seus modos de vida e valores, e quem sabe, estes não se uniriam aos movimentos e juntos todos lutariam pelo fim da corrupção endêmica e de parte das mazelas sociais que nos assolam.


Continuando o "passeio", segui em frente pela Avenida São João e subi o Minhocão pela rampa de acesso acima do povoroso terminal de ônibus Amaral Gurgel.
Do nada, me deparo com um morador de rua entrando no elevado saindo de um acampamento emprovisado ao lado e sigo em frente, acompanhado de vários andarilhos e corredores. Andando pelo Minhocão retorno à visão dos prédios outrora ocupados pela grã-finagem paulista até me deparar com um belo prédio certamente construído antes do famigerado: pintado de amarelo e rosa, agora é ocupado por um Motel (foto abaixo).


Percorro o percurso onde vários casais namoram sob alguns postes de luz queimados, vou até a Rua da Consolação e retorno.


Movido pela minha habitual curiosidade pego a Avenida Duque de Caxias e me dirijo para a Rua Helvétia próximo à Sala São Paulo. Ao chegar lá, realmente, a Cracolândia se mudou. Uma base móvel da Polícia Militar ocupa o local e vários outros veículos passam para lá e para cá....


Não satisfeito, começo a ziguezaguear pelas ruas da região em busca do novo ponto de venda e revenda da maldita até que cruzando a Avenida Rio Branco ouço um burburinho na altura da Rua dos Gusmões. Entro por ela e já me deparo com a muvuca localizada exatamente entre a Rua Guaianazes e a Alameda Barão de Limeira (pertinho da sede da Folha de S. Paulo). Quando chego e me aproximo sinto olhares estranhos uma agitação entre as pessoas que não era comum nos outros pontos quando eu chegava a passar no meio da feira livre.
De repente, um jovem com cerca de 20 anos grita: o que você quer? Não dou atenção e me retiro, mas meus pensamentos permanecem ali enquanto contorno pela Rua Vitória a nova Cracolândia a caminho da São João.


Já perto de casa passo pelo acampamento novamente e vejo o pessoal em estado de vigilância permanência, pois ao menor sinal de esmorecimento ou descuido é possível que sejam retirados de onde estão.

Catálogos eletrônicos de bibliotecas públicas


Segue rápida análise de catálogos eletrônicos de algumas das poucas bibliotecas públicas que os possuem (mérito delas) e as impressões iniciais, bem incompletas e repletas de brincadeiras que podem ser dinamitadas pelos colegas:

- Bibliotecas da cidade de São Paulo: visual pobre e pouca ou nenhuma interatividade. Para descobrir o endereço das Bibliotecas que possuem determinado livro é preciso sair do catálogo: um link no nome da biblioteca ou um script em que ao passar sobre o nome abrisse o endereço ajudariam.
Quando determinado livro está disponível em várias bibliotecas, duas barras laterais são abertas, principalmente se você utiliza um notebook ou netbook de tela de 14 polegadas. É um saco navegar em duas barras!
Em breve deve ser disponibilizada versão Web nova nos moldes das utilizadas nas Bibliotecas de Manguinhos e Niterói no RJ.

- Biblioteca de São Paulo: visual moderno, pesquisa tipo "google", informações básicas do livro (ponto contra, mas será que o usuário comum precisa de uma ficha catalográfica completa?!, enfim, um botão para ver ficha detalhada seria bem vindo!). A maior parte dos livros já está com foto da capa disponível e já é possível realizar a renovação de empréstimos via site!
Seria bacana ao invés de aparecer código colocarem localização do livro ou código de localização... sei lá!

- Bibliotecas de Santo André: falta "design" para o catálogo, parece tela de trabalho de analista de sistemas, aquele negócio todo quadradão! Mas o funcionamento é bom e isso importa muito.
Possui uma hemeroteca digital há vários anos. Deve ter sido pioneira aqui em São Paulo. Vale a pena pesquisar isso!

- Biblioteca Pública do Rio Grande do Sul: poluição visual como resultado da busca, chama a CETESB (ou a companhia similar em terras pampas!)! Entretanto, a idéia é boa, bem similar aos resultados de pesquisa do SCIELO, entretanto, com mais cores. A velha, mas pouco utilizada por aqui, possibilidade de selecionar registro é bem vinda, além do famoso dispositivo de passagem de mouse que mostra o que significa determinada sigla.
Achei engraçado um texto enorme sobre determinado registro: Obra indisponível e um :( Informativo, mas hilário!!!! Pesquisem lá pelo livro Macunaima para ver!

- Bibliote Pública do Paraná: achei a Pesquisa Geral meio poluída, mas sem nenhuma estravagância, talvez essa tela devesse ter menos informação e deixar elas todas para uma Pesquisa mais específica.
A apresentação das obras encontradas é bem diagramada apesar de não mostrar as capas das obras.
No item Localização na estante há um Tipo de empréstimo denominado "Normal"... sou lerdo para entender o que significa, help me!

- Biblioteca de Manguinhos: simples e direto, evolução em relação ao catálogo utilizado em São Paulo. Como todos, precisa de alguns ajustes, pois a solução para a falta de endereço anterior leva a uma página com mapa do Google... acho um exagero também fazer tudo isso, basta um link para o Google Mapas e se a pessoa quiser clica. Parece um contra senso de minha parte, pois outra hora reclamei do número de cliques, mas neste caso, penso em acesso via Ipad, celular ou redes lentas, que podem demorar para abrir o mapa ou consumir bytes preciosos na conta 3G do pobre cidadão (meu caso!).

Bibliotecariada, ao invés de ficar fazendo levantamentos bibliográficos e afins, vamos fazer mais relatórios e pesquisas baseadas em realidades, desde que gestores de unidades de informação (chiquérrimo!) abram as portas para avaliações reais, sem esconder falhar e problemas e sem marketeirismo exacerbado.

Me diverti!

30 de jan de 2012

Dia da saudade

Vou dar uma pausa na política e na crítica social e vou postar lembrança que traz saudade, afinal, li há pouco que hoje é dia da Saudade.

E admito que estou com saudades de viver aquela coisa tão boba, tão tola, mas tão gostosa que é se apaixonar.

Posto abaixo uma poesia que fiz em 2004 para uma amiga que havia se tornado uma namorada.

É engraçado, mas tolamente terminei aquele relacionamento.... a Erika, a quem dediquei e entreguei a poesia era uma fofa.

Saudades!

Já penso em ti
Em conviver contigo

Ainda tenho medo,
Logo percebo
E tremo

Temo errar,
Caminhos de dor
Criar

Sei que quero amar
E ao você espiar
Meu coração novamente
Se pôs a gritar!

Sorri sozinho
Ao ver seu olhar
Meigo a me contemplar
Uma satisfação meio boba,
Outros podem pensar

Mas seu primeiro olhar,
E outros olhares,
De repente
Fizeram em mim
Esperança brotar!

Mas ainda paro, penso
E quero me certificar
De que tudo vá
Harmoniosamente,
Um dia, se encaixar!

02/04/04 – 22:00

28 de jan de 2012

Invasão policial no Pinheirinho


PLÍNIO DE ARRUDA SAMPAIO
A reintegração de posse no Pinheirinho, em São José dos Campos, deveria ter acontecido?

O conluio entre os poderes econômico e político
Até quando os noticiários dos jornais e da televisão mostrarão as cenas degradantes dos despejos de famílias sem-teto?
A mais recente delas, realizada em uma área de São José dos Santos, expulsou famílias que ocupavam, há oito anos, uma área periférica da cidade.
Oito mil policiais foram desviados das suas funções de manutenção da segurança da população para essa inglória tarefa.
Agindo com violência, esses policiais feriram as pessoas, destruíram as casas e os objetos dessa pobre gente, atingindo até as crianças. Foi uma barbaridade.
O promotor público, obrigado por lei a presenciar essas operações, brilhou pela ausência.
Chama a atenção igualmente a ausência de parlamentares, especialmente daqueles pertencentes aos partidos de esquerda.
Com a exceção honrosa do senador Eduardo Suplicy, é muito raro ver parlamentares presentes nesses eventos com a finalidade de prevenir excessos da força policial.
O mais incrível é que o mesmo Estado que realizou o despejo estava negociando com o proprietário do terreno a aquisição da área, para vender aos ocupantes.
Os advogados dessas famílias fizeram um grande esforço para demonstrar à juíza do processo que a solução do problema era uma questão de dias.
Indiferente ao drama humano que sua decisão causaria, a juíza aplicou mecanicamente a lei e determinou o despejo.
Não contente, um juiz de direito acompanhou o despejo e indeferiu de plano, em pleno local, todas as petições que foram apresentadas pelos advogados com o proposito de evitar a execução do mandado.
Só se justificaria a presença de um magistrado em eventos desse tipo se fosse para prevenir excessos da força policial.
No entanto, a presença de um juiz de direito no Pinheirinho não causou nenhuma inibição nos soldados, em uma evidente demonstração do conluio entre o poder econômico e o poder político nos Estados hegemonizados pela burguesia.
Nesses Estados, a prioridade primeiríssima é sempre a defesa do sacrossanto direito de propriedade. Todo o resto -os direitos humanos, a integridade física, os pequenos pertences das pessoas- fica subordinado ao direito maior.
Por isso, o direito à propriedade de um milionário relapso, que deve milhões de tributos não pagos ao Estado brasileiro, justifica o espancamento de pessoas e a destruição de seus bens.
E agora? Como ficam as famílias despejadas? Quem cuidará delas?
Elas obviamente irão ocupar outra área. Serão novamente expulsas e voltarão a sofrer os mesmos vexames e as mesmas violências.
Isso acontece e continuará acontecendo enquanto não houver uma legislação que coíba a especulação imobiliária, porque é ela que causa o aumento extorsivo do preço dos terrenos e, desse modo, exclui as famílias pobres do mercado.
Pacífica, despolitizada e sem organização, essa população tem aceitado a situação intolerável sem recorrer à violência. Até quando?
Isso vai continuar acontecendo enquanto os partidos de esquerda deixarem de cumprir seu papel de conscientizar e organizar essa massa, para que ela resista a esses ataques de armas na mão.
Na hora em que isto for uma realidade, não haverá violência, porque a consciência dessa realidade será suficiente para manter os cassetetes na cintura.
PLÍNIO DE ARRUDA SAMPAIO, 81, advogado, foi deputado federal pelo PT-SP (1985-1991), consultor da FAO (Organização das Nações Unidas para a Agricultura e a Alimentação) e candidato a presidente pelo PSOL (Partido Socialismo e Liberdade)

24 de jan de 2012

Parabéns para você? Não. Por que?

É sempre educado agradecer os parabéns em seu aniversário e agradeço.

Entretanto....

Não posso aceitar passivamente os parabéns.
Não posso.

Mas vamos, ao que eu quero me dar de presente após este aniversário.

Preciso resolver questões há anos e não resolvo. Há pessoas esperando por uma resolução.

Preciso amar mais ao próximo. Ir além de levantar situações e divulgá-las. De que adianta ver, falar e nada de fato fazer?

Preciso aprender a obedecer quando preciso.

Preciso reaprender a ouvir e depois responder.

Preciso começar tudo que inicio.

Rever os amigos, fazer novos e desejar feliz aniversário para eles.

Quero viver com razão suportada pelo coração, e assim, poder fazer como um teólogo da Igreja Ortodoxa Russa citado pelo Rubem Alves: Não há mais nada a fazer. Era hora de se entregar inteiramente ao deleite da vida: ver os cenários que ele amava, ouvir as músicas que lhe davam prazer; ler os textos antigos que o haviam alimentado. Acrescento que mesmo avançando em várias coisas, continuarei trabalhando, vivendo os momentos que devem ser solitários e também aqueles em comunidade.

21 de jan de 2012

São Paulo, eu, Bob Wolfenson e a tal arquitetura do preconceito

Reencontrei outro dia um livro publicado pelo Bob Wolfenson, o fotógrafo das celebridades.

Preconceito à parte, a obra, chamada Antifachada (http://www.bobwolfenson.com.br/v2/en/exhibitions/antifachada) é uma ode a feiúra de parte significativa dos prédios de São Paulo.

Logo, uma coisa que fiz agora há pouco quando caiu uma imensa tromba d'água foi tirar fotos de uma das janelas do meu apartamento, local que há muito tempo não parava para olhar com atenção.
Percebi que as fachadas que vejo da área de serviço dariam belas fotos do Bob (que intimidade já...).

Vejam:




Eis algo que compartilho com o fotógrafo: as imagens da cidade de São Paulo e as beldades que ele fotografa e eu olho cheio de inveja.

Em tempo, ele tem uma bela exposição de fotos do Bom Retiro.
http://www.bobwolfenson.com.br/v2/en/exhibitions/bom-retiro

Aproveito para postar fotos de algumas fachadas, portões, portas de aço de vários prédios da cidade onde adaptações para evitar roubos e a presença de moradores de rua e viciados em drogas como o crack criaram uma arquitetura do preconceito ou também do medo.

Fica a pergunta, é possível mudar situações destas? De uma forma ou de outra todas as fotos revelam como moram e vivem parte dos paulistanos, migrantes e imigrantes.

 Correntes

 Luz de segurança anti-morador de rua com sono

 Casinha de aço anti-encosto de moradores de rua

 Portão de aço engradado

Mural anti-assento 

 Mural anti-assento dos Correios

 Detalhe do mural anti-assento dos Correios

 Bela entrada do edifício Adelina engradado

 Simpático mini-muro jardim da Santa Casa de Misericórdia

 Lindinho, não?

 Grades e luz forte em simpático prédio da Vila Buarque

Jardim suspenso da Vieira de Carvalho 

 Jardim suspenso da Vieira de Carvalho, maravilha do centro!

 Barra de aço anti-invasão de veículos, chique, até na Oscar Freire tem!

Os bancos não poderiam ficar de fora! São eles os patrocinadores das artes e das inovações nas agências bancárias.
 Santander da Rio Branco: vidros anti-moradores de rua

 Itaú: grades branquinhas!

 Citibank da São João com a Ipiranga. Por que será que o Caetano não cantou essa belezinha?

 Outra bela entrada gradeada de edifício na Guaianazes. Já deve ter sido um privê....

 Belezura de grades escondem formosa entrada

 Mais Santander da Rio Branco!

Pedaços de vidro no muro envolta da Favela do Moinho 

Elegância enmurada nos baixos Higienópolis!

11 de jan de 2012

Longos aforismos

Tudo e todos estão contra você? Pode ser, mas santo, avalie-se e veja que você não é perfeito e também provoca os outros.

Enquanto não chega o que você tanto espera aproveite a vida sem esperar.

Um amor não encontrei, mas no caminho amores deixei. Seria ótimo, ao menos uma vez retroceder, não é?

2 de jan de 2012

Igreja Mundial x O Senhor dos anéis

Acabo de assistir ao filme "O Senhor dos Anéis - O Retorno do Rei" e me deparo com a informação do caos no trânsito próximo ao Aeroporto Internacional de Guarulhos aqui em São Paulo.
Segundo algumas informações, a culpa do caos não foi toda da inauguração da sede nova sede da Igreja Mundial do Poder de Deus, uma vez que um pouco de caos é natural do retorno para São Paulo de parte dos veículos que foram embora para as comemorações do Ano Novo.
Entretanto, vi uma foto com vários ônibus e uma porção de gente trafegando pela rodovia Dutra tomando parte de uma das pistas.
O povo todo estava lá para acompanhar a inauguração de um mega templo! A idéia do líder da igreja, o tal Valdomiro (só isso, afinal prometi xingar menos as pessoas nesse ano de 2012!), é poder reunir o povo para louvar a Deus. Sonho louvável, mas.... será que é só para isto? Será necessário mesmo um templo tão amplo? Não seria melhor templos locais menores? Ahh... mas não dá, ele não é onipresente para ser bajulado e paparicado em todos os locais. E claro, 150 mil pessoas em frênesi contínuo é muito mais fácil de ser manipulado...
A partir desse pensamento faço a comparação com parte do filme.
O pano de fundo é o seguinte: dois personagens (Pippin e Gandalf) saem de uma conversa não muito amistosa com o regente do reino de Gondor e vão para uma espécie de sacada da imensa Minas Tirith e o mago Gandalf discorre sobre o motivo da perda da glória do reino de outrora.
Qual foi motivo?
Os reis e seus entes próximos começaram a fazer belos e imensos túmulos para si próprios e esqueceram-se do povo, levando todos à ruina.
Para finalizar logo, pois estou fora de forma para escrever, penso que ocorre o mesmo com esta igreja. Ao invés de investir no desenvolvimento dos fiéis que diz amar tanto, a igreja prefere construir prédios. Isto me lembra bastante a igreja católica, cujo poder e influência se perderam no tempo e nunca mais foram recuperados porque investiu mais em si mesma do que no povo. E nem cito os diversos governantes e ditadores que fizeram o mesmo.
E claro, não posso esquecer o nosso judiciário. Basta dar uma olhada nos maravilhos edifícios construídos pelos diversos tribunais no país para identificar o mesmo tipo de ação: mordomia para quem devia servir!
Um dia, a casa cai!

1 de jan de 2012

Um Brasil sem favela?


As políticas públicas do país para favelas são insuficientes e ineficientes; se nós quisermos, podemos garantir que crianças não mais cresçam em barracos
IBGE: mais de 11 milhões de brasileiros vivem em 6.329 favelas em 323 municípios. É uma triste realidade, que se perpetua por gerações como o mais hediondo monumento à desigualdade social no Brasil.
Quase a metade situa-se na região Sudeste (145 municípios), dos quais metade (75) nas suas regiões metropolitanas. O fenômeno da favelização é urbano e metropolitano, pois 88,2% dos domicílios em favela estão nas regiões com mais de 1 milhão de habitantes.
Nossas políticas públicas para favelas são desarticuladas, insuficientes, ineficientes, com obras inadequadas e mal feitas (quando feitas), sem nenhuma previsão de manutenção, num descaso social inaceitável e que atinge, sobretudo, as crianças do país.
O IBGE mostrou que a densidade demográfica é maior na favela que na cidade formal e que um barraco tem mais crianças que uma casa regular. Só não tem mais idosos, pois o índice de natalidade é maior na favela, mas não o de longevidade.
Num país com imensas reservas de calcário e argila -matéria-prima de todos os cimentos; com parque siderúrgico, portanto, com vergalhões, perfis, chapas de aço; com sílica à vontade, portanto, com todo tipo de vidro; com um polo petroquímico que produz tinta, borracha e plástico; que possui madeira de todo tipo, exporta alumínio e ainda conta com um exército de serventes, pedreiros e carpinteiros, uma pergunta persiste.
Por que, meu Deus, tanta gente vive em barracos, sujeita a incêndios ou a morrer soterrada na lama e no lixo nos temporais?
Por que tanta laje sem telhado, de onde em dia de sol não é raro cair uma criança soltando pipa ou uma dona de casa estendendo roupa e, em dia de chuva, se formam milhões de poças para criatório do mosquito da dengue?
O Minha Casa, Minha Vida é excepcional, mas alcança uma população acima da miséria.
O Fundo de Habitação de Interesse Social, do qual tive a honra de ser relator, supre convênios com prefeituras e Estados, mas sua natureza não é de ir à favela para reformar ou jogar no chão um barraco e em seu lugar edificar, com mão de obra local e em só três dias, uma casa para ser entregue mobiliada e pronta.
Foi o que fizemos, por exemplo, para uma viúva pobre de 54 anos, que pesava 32 quilos e que criava sozinha três netos, que provia com ajuda da divina Bolsa Família.
Ela me disse: "Eu passo fome, meus netos, não!". Mais não se podia dizer para retratar a dignidade e o espírito de renúncia de quem, nada tendo, doa a si mesmo. Ela foi mais uma beneficiada do Cimento Social, programa que desenvolvemos há anos na Providência, tentando criar no Brasil esse cimento para unir profissionais, empresários, universidades e sobretudo os governos num "Movimento Brasil sem Barraco".
No Rio, a prefeitura adotou o Cimento Social e indicou Mangueira e Andaraí para começar. Se todos quisermos, podemos garantir que no Brasil nenhuma criança nasça, cresça e sobreviva em barraco.