31 de dez de 2011

Feliz Ano-Novo Pessimista

Historicamente, não curto muito o Dráuzio Varella, mas gostei desse texto dele sobre essa época do ano. Nunca consegui ficar não atormentado nessa época, logo, sou irmão dele.

Feliz Ano-Novo!
William Okubo

DRAUZIO VARELLA

Dizem que uma das aquisições da maturidade é a aceitação das fraquezas e das limitações pessoais
Fim de ano é sempre um inferno. Começa com o Natal, festa pagã consumista disfarçada de comemoração religiosa que nos enche de obrigações e tumultua a vida da cidade, já antes do primeiro de dezembro.
Com os dois olhos nas vendas e nenhum no aniversariante, o comércio se engalana com papais noéis obesos em posições circenses nas janelas e nas marquises das lojas, adornados com guirlandas de plástico, bolas multicolores e flores artificiais amarradas com laços vermelhos de bordas douradas, em meio às luzinhas que serpenteiam junto de trenós e renas a cavalgar num calor de 30 graus.
É um festival de breguice urbana de raro senso estético.
O trânsito de São Paulo que já é de chorar, vira uma tortura. As ruas que ousam chegar perto dos shoppings, da 25 de Março e das lojas do Bom Retiro viram estacionamentos a céu aberto, nos quais os carros se movem ocasionalmente.
A decoração da avenida Paulista e a incrível árvore de Natal do Ibirapuera atraem tanta gente desocupada, que pobre do mal-aventurado que precisa se locomover por essas paragens.
Graças às hordas de curiosos motorizados que se acotovelam para espiar a decoração da Paulista, sexta-feira passada fiquei preso num congestionamento na avenida Rebouças, à meia-noite. Tem cabimento? Ainda mais irritante é a felicidade natalina que se dissemina à medida em que o dia 25 se aproxima.
O pessoal dos escritórios lota os bares e restaurantes para almoços e jantares de confraternização ensurdecedora. Em meio à gritaria alcoolizada, todos se abraçam e se beijam, juram amor eterno e trocam presentes com os amigos secretos.
Nessa época, chovem convites para sair com parentes e amigos. Parece que se não os encontrarmos antes do fim de ano, o relacionamento sofrerá um abalo terrível.
Como alegar falta de tempo para não atender a essas convocações é considerado menosprezo, lá está você de banho tomado na correria, morto de fome, depois de um dia trabalho, do calor insuportável e do trânsito insano, para um jantar que será servido às dez e meia, quando todos já estiverem enfastiados com os canapés, azeitonas, patês e queijinhos servidos com as bebidas.
Vira um martírio trabalhar nessa época em que todos estão em clima de festa. A partir do dia 15, até o inadiável fica para o ano seguinte. Quando chega a hora de reunir a família na ceia de Natal, já estou desanimado de tanto correr, beber e comer mais do que devia.
O prazer de ver as crianças excitadas com os presentes embaixo da árvore, entretanto, compensa o sacrifício dos dias anteriores. Invadido pelo espírito natalino, chego a admirar o clarão dos fogos ao longe e até as luzinhas coloridas no prédio vizinho.
Nos dias que se seguem parece que São Paulo mudou de cidade: calçadas desertas, lojas fechadas, trânsito de 1950.
Pensa que faço as pazes com a paz? Nesse ambiente pacato sou tomado pela ansiedade do Ano Novo; prometo para mim mesmo que tudo será diferente, desta vez.
Agora trabalharei menos, dedicarei mais tempo para os amigos, visitarei o tio querido que passou dos 90 anos, andarei à toa pelas ruas do centro velho, apanharei chuva, estudarei mais, lerei as revistas e os livros que empilhei na cabeceira, viajarei para o rio Negro, terminarei de escrever o livro que está pela metade e correrei duas maratonas: uma no primeiro, outra no segundo semestre.
Serei um médico mais competente, mais culto, um escritor com domínio da escrita e um maratonista capaz de atravessar a linha
de chegada sem a exaustão que dá vontade de chorar no meio da rua.
Tenho o bom senso, no entanto, de guardar em segredo essas intenções. Não ouso divulgá-las porque já o fiz em tantas oportunidades, que acabaria desmoralizado outra vez. A julgar pelos anos anteriores, daqui a pouco estarei tão envolvido com o trabalho que os bons propósitos irão para o espaço.
Dizem que uma das aquisições da maturidade é a aceitação das fraquezas e das limitações pessoais. Talvez eu morra sem resolver a contradição entre o trabalho excessivo e o lazer.
Vou parar de me queixar, às vezes fico cansado de ser eu.
Feliz Ano-Novo para você, leitor amigo, menos atormentado do que este que vos escreve no último dia de 2011.


27 de dez de 2011

A volta de Jesus, 2011 anos depois

Roubei primeiro do Ricardo Kotscho, que por sua vez roubou do Frei Betto. Um dos melhores textos que li nos últimos tempos sobre o Natal.

Conforme a ocasião, é melhor a gente passar a palavra para quem entende do assunto.

Neste Natal de 2011, meu presente para os leitores do Balaio é um belo texto sobre "A volta de Jesus" escrito pelo meu velho amigo Frei Betto, escritor e frade dominicano, que transcrevo abaixo:
A VOLTA DE JESUS
Frei Betto

Sem chamar a atenção, Jesus voltou à Terra em dezembro de 2011. Veio na pessoa de um catador de material reciclável, morador de rua. Comia prato feito preparado por vendedores ambulantes ou sobras que, pelas portas do fundo, os restaurantes lhe ofereciam.
Andava sempre com uma pomba pousada no ombro direito. Estranhou o modo como as pessoas bem vestidas o encaravam. Lembrou que, na Palestina do século 1, sua presença suscitava curiosidade em alguns e aversão em outros, como fariseus e saduceus.
Agora predominava a indiferença. Sentia-se, na cidade grande, um Ninguém. Um ser invisível.
Ao revirar latas de lixo à porta de uma faculdade, nenhum estudante ou professor o fitou. “Fosse eu um rato a remexer no lixo, as pessoas demonstrariam asco,” pensou. Agora, nada. Nem o percebiam. Ou consideravam absolutamente normal um homem andrajoso remexer o lixo.
Graças a seu olhar sobrenatural, capaz de apreender alma e mente das pessoas, Jesus sabia que eram, quase todas, cristãs...
Roubaram um carro defronte a faculdade. A vítima, uma estudante cirurgicamente embelezada, apontou-o como suspeito de cúmplice dos ladrões. A polícia, sem pistas dos criminosos, decidiu prendê-lo para aplacar a ira da moça, filha de um empresário.
O delegado inquiriu-o:
— Nome?
— Jesus.
— Jesus de quê?
— Do Pai e do Espírito Santo.
O delegado ditou ao escrivão:
— Jesus da Paz, natural do Espírito Santo.
A polícia conhece a diferença entre bandidos e moradores de rua. Tão logo a moça e seus pais deixaram a delegacia, Jesus foi liberado.
Saiu pela avenida, de olho nas vitrines das lojas. Todas repletas de enfeites de Natal. Tentou avistar um presépio, os reis magos, uma imagem do Menino Jesus... Viu apenas um velho de barba branca, gordo, com a cabeça coberta por um gorro tão vermelho quanto a roupa que vestia. O menino nascido em Belém havia sido substituído por Papai Noel. A festa religiosa cedera lugar ao consumismo compulsivo e à entrega compulsória de presentes.
Impressionou-se com os rápidos flashes coloridos dos televisores expostos nas lojas. A profusão de anúncios. Comentou com o Espírito Santo:
— Houvesse TV naquela época, teriam transmitido o Sermão da Montanha como um discurso subversivo e exibido no Fantástico a multiplicação dos pães. Se eu facilitasse, uma marca qualquer de cerveja iria querer me patrocinar...
Em busca de material reciclável, Jesus se surpreendeu com a quantidade e a variedade de lixo. Quanta coisa ele não conhecia! Como as pessoas consomem supérfluos! Quanta devastação da natureza!
Dormiu num banco de praça. Ao acordar, deu-se conta de que desaparecera seu saco repleto de latinhas e papéis. Possivelmente outro catador o levara. Pobre roubando pobre. Resignado, passou o dia revirando lixo para ganhar uns trocados e poder garantir a janta.
Tarde da noite, viu uma igreja aberta. Decidiu entrar. Os fiéis, ao vê-lo tão maltrapilho, torceram o nariz. Jesus preferiu ficar de pé no fundo do templo. A Missa do Galo se iniciava. Achou o padre com cara triste, como se celebrasse um ritual mecânico. O sermão soou-lhe moralista. Não sentiu que houvesse, ali, a alegria da comemoração do nascimento de Deus feito homem. Os fiéis se mostravam apressados, ansiosos por retornarem às suas casas e se fartarem com a ceia natalina.
Terminada a missa, Jesus perambulou pela cidade. Pelas calçadas, sacos de lixo estufados de embalagens para presentes, caixas de papelão, ossos de frango e peru, cascas de ovos... Observou os moradores de um prédio reunidos no salão do andar térreo. Comiam vorazmente, estouravam garrafas de espumantes, trocavam presentes, abraços e beijos. Nada ali, nenhum símbolo, que lembrasse o significado originário daquela festa.
Passou diante de uma padaria que fechava as portas. O padeiro, ao ver o catador, pediu que esperasse. Retornou lá de dentro com uma sacola de pães, fatias da salame e um refrigerante.
— É pra você comemorar o Natal – disse o homem.
Jesus chegou a uma praça semiescura. Havia ali uma mulher excessivamente maquiada. Buscou um banco e ali se instalou para poder comer. A mulher se aproximou:
— Ei, cara, tem o que aí?
— Pão, salame e refrigerante.
— Não comi nada hoje. E a noite tá fraca. Faz duas horas que estou aqui e nada de freguês. Acho que em noite de Natal os caras ficam com culpa de pegar mulher na rua.
Jesus preparou o sanduíche e estendeu-o à mulher.
— Se não importa de beber no mesmo gargalo...
— Tenho lá nojo de alguma coisa? – murmurou a mulher. ¾ Se tivesse, não estaria rodando a bolsinha na rua.
— Você não tem família?
— Tenho, lá na roça. Larguei aquela miséria pra tentar uma vida melhor aqui na cidade. Como não fui pra escola, o jeito é alugar meu corpo.
— Esta noite de Natal não significa nada pra você?
— Cara, você não imagina o que já chorei hoje lá na pensão. A gente era pobre, mas toda noite de Natal minha mãe matava um frango e, antes de comer, a família rezava um terço e cantava Noite feliz. Aquilo me deixava muito feliz. Não posso relembrar que as lágrimas logo inundam os olhos – disse ela puxando o lenço de dentro da bolsa.
A mulher fez uma pausa para enxugar as lágrimas e indagou:
— Acha que, se Jesus voltasse hoje, esse mundo iria melhorar?
— Não sei... O que você acha?
— Acho que ninguém ia dar importância a ele. Essa gente só quer saber de festa, e não de fé. Mas bem que ele podia voltar. Quem sabe esse mundo arrevesado tomava jeito.
— Eu não gostaria que ele voltasse. Não adiantaria nada. Há dois mil anos ele veio e deixou seus ensinamentos. Uns seguem, outros não. Se o mundo está desse jeito, a ponto de eu ter que catar lixo e você alugar o corpo, a culpa é nossa, que não damos importância ao que ele ensinou. Veja, hoje é noite de Natal. Jesus renasce para quem?
— No meu coração ele renasce todos os dias. Gosto muito de orar, não faço mal a ninguém, ajudo a quem posso. Mas, sabe de uma coisa? Eu gostaria de poder falar com Jesus, assim como nós dois estamos conversando aqui.
— E o que diria a ele?
— Bem, eu perguntaria se ser prostituta é pecado. Já vi um padre dizer que sim, e ouvi outro falar que não. O que você acha?
— Acho que Deus é mais mãe do que pai. E lembro que Jesus disse um dia aos fariseus que as prostitutas iriam entrar no céu primeiro que eles.

Frei Betto é escritor, autor do romance “Um homem chamado Jesus” (Rocco), entre outros livros.


25 de dez de 2011

A alma das cidades: pedestres em São Paulo

Como bem sabe qualquer turista, um dos prazeres de conhecer as grandes cidades do mundo está em simplesmente caminhar sem destino fixo, deixando-se levar pelo acaso das ruas.
A surpresa de encontrar uma praça escondida, de se deparar com um ângulo insuspeito da paisagem urbana, se soma à experiência de mergulhar no fluxo dos passantes, flagrando sua diversidade no vaivém cotidiano.
Não são muitas as regiões de São Paulo capazes de oferecer esse tipo de sensação. A cidade, notoriamente hostil ao pedestre, tende a estruturar-se como um mosaico de destinos razoavelmente interessantes, todavia cercados de zonas mortas, quando não perigosas.
Assim, o núcleo turístico criado em torno da Pinacoteca de São Paulo se encolhe nas imediações da cracolândia, e, na Cidade Jardim, os esplendores de um shopping de luxo aterrissaram às margens de uma via expressa.
A região da avenida Paulista e da rua Augusta é uma das poucas em que o pedestre, ainda mais se for turista, pode apreciar aquele meio termo entre a homogeneidade e a diversidade, entre a segurança e a surpresa, que faz a graça dos locais mais visitados nas grandes cidades do mundo.
Diante da notícia de que quatro shoppings serão construídos nessa área, é natural que os especialistas se dividam. "O shopping é anticidade", opina Álvaro Puntoni, professor da USP. Haveria mais sentido, diz o planejador urbano Thiago Guimarães, se complexos comerciais fossem construídos fora do centro, redirecionando o trânsito e a atividade econômica para áreas menos congestionadas.
Não há incompatibilidade de princípio entre a existência de um shopping e a vitalização das vias ao seu redor. É claro que um "bunker" comercial, fechado para a rua, como é comum em São Paulo, constitui agressão à cidade. Pequenos shoppings semiabertos, de que há exemplo aliás na região do Itaim, podem, entretanto, integrar-se à rua tradicional -e parece ser esta a intenção de alguns dos novos projetos da Paulista.
Mas é, sobretudo, a valorização da rua que precisa se impor em São Paulo, com reformas de calçadas e enterramento da fiação, como se fez, por exemplo, na Oscar Freire. Um caminho que também poderia ser tentado é inverso e simétrico ao da construção de shoppings: ruas que, tendo ampla oferta de lojas e restaurantes, priorizem o pedestre. Servidas por bolsões de estacionamento, seriam como que shoppings a céu aberto, ou, quem sabe, coisa melhor: lugares de convívio urbano livre e democrático.
É só em ambientes assim, de delicada ecologia econômica e social, que a alma das cidades sobrevive.

22 de dez de 2011

Leis de incentivo a Cultura: posição coerente


TENDÊNCIAS/DEBATES
Os valores e a cultura
Parece politicamente correto combater as leis de incentivo cultural, mesmo que sigam sem contestação os incentivos em todos os demais terrenos
O cancelamento de uma exposição de arte no Rio foi objeto de recente reportagem da "Ilustrada", na qual o foco caiu em partes iguais sobre a censura a uma obra, os valores de quem paga pela arte, e sobre as leis de incentivo cultural, que, diz o texto, delegam às empresas o poder de decidir o conteúdo cultural a mostrar e, portanto, subentende-se, são (também) as culpadas.
Aqui não se discutirá a censura à arte. Censura é inaceitável, fim. Assentado isto, os pontos a discutir são dois: 1) de onde podem vir os valores que orientam a escolha da arte a apoiar e 2) as leis de incentivo que conferem poder de escolha à sociedade civil.
O título maior daquela notícia dizia: "Valores corporativos ditam o financiamento cultural". É verdade. Valores, corporativos e outros, sempre o fazem. Na história das sociedades ocidentais, esses valores foram e têm sido ditados pela Igreja, pelo Estado e pela sociedade civil (que inclui a iniciativa privada).
Embutidos nesses atores estão curadores, críticos e artistas, igualmente procurando impor seus valores -estéticos, morais, ideológicos, comerciais. É assim que as coisas funcionam. Quando se critica os "valores corporativos", subjaz a ideia de que há outros melhores para impor esse "diktat".
Quais? Nem a Igreja (qualquer delas) nem o Estado (qualquer deles, com qualquer governo) têm mais legitimidade do que a sociedade civil (com essa sua parte, a iniciativa privada) para ditar valores à arte.
De resto, por lei a igreja não mais o pode fazer. Quanto ao Estado, é imensa ingenuidade, ou perversão, supor que ele (qualquer que seja, e seja qual for seu governo) ditará valores culturais mais adequados. A história o comprova. Resta a sociedade civil, com todo o seu espectro e suas inúmeras opções.
Os "valores corporativos" (expressão ruim: a igreja também tem seus valores corporativos, como o Estado) não são os únicos, nem os decisivos, dentro da sociedade civil. Mas dela fazem parte.
A questão, portanto, não é saber se valores, quaisquer que sejam, podem ser ditados à arte: eles são sempre ditados. Cabe escolher o caminho mais favorável à arte e à sociedade. As leis de incentivo fiscal, com sua delegação da escolha à sociedade civil, são parte do cenário, e parte importante, uma vez que o mercado da cultura é incipiente, e o Estado, ausente.
É preciso continuar lembrando que a criação dessas leis significou uma ansiada independência (embora relativa) da sociedade civil diante do Estado que a oprimira durante 20 anos. Mesmo porque cultura é uma questão da sociedade civil, não do Estado.
As leis de incentivo à cultura continuam sob ataque. E sua defesa é tímida ou inexistente, sobretudo em público. Parece politicamente correto combatê-las, mesmo se todos os demais incentivos em todos os demais terrenos sigam sem contestação. Pode-se discutir se o incentivo fiscal deve ser apenas para o artista independente ou se cabe também para a instituição.
Mas o sistema da arte precisa dos dois: o artista fazendo sua parte, a instituição pondo-o em contato com seu público e com a história. A medida dessa distribuição é o que cabe discutir. A instituição corporativa pode ter seu espaço, e as instituições artísticas sem corporações a mantê-las, idem. Ao lado do Estado, outro ator naquilo que lhe cabe.
A arte, ainda mais que a cultura, é um combate pelo gosto. E esse combate se apoia em valores, todos conflitantes. Só desse conflito surge algo estimulante. Cabe compensar o sistema ali onde os pesos se tornam desiguais, não aboli-lo ou a algum de seus atores.

JOSÉ ROBERTO TEIXEIRA COELHO é professor titular de Ação Cultural da USP, autor de "História Natural da Ditadura" (2006, vencedor do Prêmio Portugal Telecom), entre outros livros, e curador do Masp (Museu de Arte de São Paulo).

1 de dez de 2011

Zona Leste

Engraçado, mais um texto sobre a região.

Desta vez o texto não é de ninguém conhecido: Riselda Morais. Ela publicou um livrinho de poesia em 2010 pela editora do Autor. Nao é nenhuma Cecília Meireles, mas ela se esforça.

Enquanto isso.... o governo ajuda a gastar milhões para construir um estádio de futebol. O mesmo que aconteceu e dizem não ter acontecido quando construiram o Morumbi.


ZONA LESTE

Eis, a grande Zona Leste
Onde milhões vem dormir
De dia todos vão trabalhar
Para a cidade construir

É diário o deslocamento
Da vida e sobrevivência
Uma comunidade sofrida
Em constante convivência

Vivendo com esperança,
Amor e força para lutar,
assim, os habitantes,
fazem a região leste melhorar

Mais qualidade de vida,
saúde, esporte, educação
arte, lazer, transporte
exige mobilização

27 de nov de 2011

Em plena Radial Leste

UGO GIORGETTI

Domingo de manhã, muito cedo. Em plena Radial Leste surgiu na minha frente uma camionete, dessas com uma pequena caçamba, dentro da qual vi uma moça sentada sobre o que parecia uma pequena caixa. Ao seu lado um rapaz, que saiu do meu campo de visão para sempre, já que não pude mais tirar os olhos da moça, linda, linda, linda. (Minha insistência nessa única palavra substitui inúteis descrições minuciosas que já li em tanta literatura de segunda.)
Percebi com vaga inquietação que ela também me olhava fixamente. E então fez um gesto. O gesto, para o qual fazia uso das duas mãos delicadamente erguidas na altura do rosto, simulava alguém enrolando uma carretilha, alguém girando uma pequena manivela. Sou um homem de cinema e imediatamente reconheci o gesto. Indicava um filme rodando, uma câmera em funcionamento. Logo depois me dirigiu outro gesto. Com o indicador da mão direita fez um sinal negativo, de não. Algo que eu não devia fazer. E, rapidamente, com o mesmo dedo indicador mostrou algo à minha esquerda. Claro como água: não deveria olhar para a esquerda, vale dizer, não deveria olhar para a câmera, primeira recomendação que extras e figurantes recebem num set de filmagem. Concluí que uma filmagem transcorria num carro à minha esquerda. A câmera devia estar enquadrando o motorista desse carro e talvez alguém ao seu lado. De qualquer maneira, meu carro, e eu próprio, deveríamos estar no campo de visão da câmera através da janela do passageiro, de modo que qualquer ação inadequada que eu fizesse poderia prejudicar a filmagem.
Obedeci às instruções, paralisado pela moça. Pensei impressioná-la com um gesto que a surpreendesse pela elegância e naturalidade, revelando-lhe talvez muito do que eu sabia do ofício em que ela estava evidentemente se iniciando. Não fiz nada. A linda criatura da camionete, então, sorriu. Seu sorriso me trespassou. Parecia me agradecer a compreensão e boa vontade. Pensei em retribuir o sorriso, mas nem isso fiz. Naquela hora da manhã, o sol ainda baixo, seu rosto entrava e saía da luz, conforme a camionete passava pelos intervalos entre um prédio e outro. Sua imagem oscilando entre luz e sombra parecia me oferecer, e ao mesmo tempo me negar, tanta beleza e juventude.
Ela fez mais um sinal com as duas mãos abertas, pedindo calma. A camionete diminuiu a marcha diante de um sinal fechado. Ela mantinha o mesmo gesto me advertindo que a filmagem continuava. Devia ser uma cena longa, talvez um diálogo. Quem estaria ao meu lado, no outro carro? Talvez um ator, um velho amigo, por que não? Com o rabo dos olhos pensei ver a parte anterior de um carro que me pareceu vermelho. Continuei minha atuação convincente, como a que tantas vezes pedira a meus figurantes.
O sinal abriu, a camionete começou a acelerar. A garota, então, desfez o gesto e sorrindo me lançou um beijo. Depois outro, longo, com o mesmo sorriso. E de repente me ocorreu que poderia ter me enganado. Que era apenas uma mulher que fazia sinais para um homem. De repente pensei que tinha perdido uma oportunidade, última, talvez, que uma linda mulher me oferecia. Pode ser que os sinais que tinha recebido não quisessem significar filmagem alguma e que minha interpretação se devesse apenas a uma deformação profissional, ou uma certa descrença em minhas possibilidades que vem crescendo ultimamente. Talvez eu tivesse entendido tudo errado.
Mas, antes que pudesse fazer qualquer gesto em sua direção, antes que pudesse, desesperado, tentar reparar meu possível erro, a camionete fez uma brusca curva na direção de uma rua à direita e ainda consegui ver a jovem me acenando, agora em pé na caçamba, aliviada pela conclusão de sua tarefa, ou como se -quem sabe?- também quisesse me dizer alguma coisa importante. Camionete e moça sumiram entre prédios e trânsito. Eu continuei pela Radial Leste, não sem antes, livre da proibição, olhar à minha esquerda: não havia nada.

19 de nov de 2011

Sonhos da MEL

MEL é cabelereira.
MEL trabalha em um Salão de Beleza popular no centro de São Paulo.
MEL é descendente de índios, nasceu em Roraima e cresceu no Amazonas.
MEL usa aplique de cabelo loiro alisado e muitos que passam pelo vidro do salão dão uma olhada, ou grandes olhadas e se vão.
MEL vai participar de um concurso nacional de beleza em dezembro.
MEL quer representar seus amados estados "natais" e se tornar conhecida, afinal o Pânico na TV e principalmente a BAND, que costuma transmitir o início e o fim do concurso, estarão lá!
MEL imagina estar presente no Miss Mundo! Já pensou?!
A amiga da MEL disse que quer ir no lugar chique, mas pediu para MEL tomar cuidado, pois ela pode pagar maior mico se ficar em último lugar. MEL e todos em volta riem!
MEL diz que não vai responder a perguntas pessoais quando for entrevistada. Ela só vai falar do Salão onde trabalha.
MEL quer aproveitar a fama para trazer muitos clientes e quem sabe cobrar R$50,00 o corte e não apenas R$10,00?!?!
MEL quer vencer na vida como todos nós trabalhadores.
MEL é transexual.


Meu texto é uma homenagem a essa trabalhadora que ouvi falando no salão de cabeleireiro onde cortei meu cabelo agora a tarde por R$10,00! 


Mão de vaca, sim, eu sou!

Grandes guerras e as guerras diárias me PARALIZAM!

Me sinto como que saindo de uma guerra. Ou melhor, saio de uma batalha e continuo na guerra cotidiana da vida. Balas passam por minha cabeça e por meu coração. Balas saem do gatilho em minhas mãos, da minha boca e também da minha mente, se é que algumas não são atiradas veementemente do coração!

Mas não voltei aqui para escrever poesia.... mas quem disse que poesia é inútil (questão para um post único 1).

Vou falar sobre música. Sobre música e letra, na verdade.

Depois de uma amiga compartilhar uma canção antiga de uma banda cristã americana, não sei por que, me lembrei de uma outra canção de outra banda mais ou menos cristã. A primeira banda é o Third Day, a segunda é o Sixpence None the Richer.

O Sixpence é mais conhecido por aquela canção pegajosa chamada Kiss Me que acabou sendo colocada em uma porção de filmes e virou hit no rádio e também na MTV. Primeiro, tenho que admitir que em uma época cheia de romance no coração (um tiro chegou lá e o despedaçou várias vezes já), fui em uma loja e.... comprei o CD! Ouvi-lo foi surpreendente! Havia muito mais que Kiss Me lá! E claro, para começar, o que me chamou a atenção como de costume foram as guitarras do Matt Slocum!

Óbvio que comecei a acompanhar a carreira do grupo e acabei me esquecendo do Sixpence. Há pouco mais de 2 anos voltei à carga e baixei mais dois CDs deles (o melhor trabalho da carreira deles é o Divine Discontent!).

Em um destes CDs havia uma canção denominada PARALYZED. Como de costume, durante muito tempo me preocupei apenas em ouvir a música porque nela há um dos melhores riffs de guitarra que conheço, mas é fundamental ouvir o que a bela voz da Leigh Nash canta. Eis que ao atentar para a letra vemos um líbelo contra a guerra. Especificamente sobre a guerra do Kozovo, mas basta pensarmos um pouco e nos lembrar quantas guerras acometem a humanidade neste momento para imaginar quanto sangue derramado há nos campos do mundo. Quantos mortos. E quantos bebês já chorando no útero de suas mães.

Não vou escrever mais nada, apenas compartilho a a letra em inglês, em português e o link para uma apresentação ao vivo da música no youtube.

I look out to the fields
Where blood is shed upon the ground 
I breathe in, breathe out 
Change the channel, mute the sound 
I take a match, a cigarette, and a walk to clear my head
My stomach reeling at the thought of all those human beings dead 


I breathe in, and breathe out 
And go to do an interview 
About a song, three minutes long 
I just need something to do. 
Especially when my dearest friend
Was sent to cover Kosovo 
His last assignment brought a bullet 
And now he's gone, he's gone 


Feels like I'm fiddling while Rome is burning down 


Should I lay my fiddle down, take a rifle from the ground?
I need the ghost to breathe a northern gale tonight 


'Cause I'm paralyzed, I'm paralyzed 


I packed his books up, left the office 
Went to tell the wife the news 
She fell in shock, the baby kicked, and shed a tear inside the womb 
I breathe in, I breathe out 
Soak the ground up with my eyes 
It's hard to say a healing word 
When your tongue is paralyzed 


Feels like I'm fiddling while Rome is burning down 


Should I lay my fiddle down, take a rifle from the ground?
I need the ghost to breathe a northern gale tonight 
'Cause I'm paralyzed, I'm paralyzed


Eu dou uma olhada nos campos

Onde sangue é derramado no chão
Eu inspiro e expiro
Mudo o canal, deixo o som mudo
Eu pego um fósforo, um cigarro e dou uma volta pra clarear a cabeça
Meu estômago está revirando de pensar em todos aqueles seres humanos mortos


Eu inspiro e expiro
E vou dar uma entrevista
Sobre uma música, duração de 3 minutos
Preciso fazer alguma coisa
Principalmente quando meu melhor amigo
Foi mandado pra cobrir a guerra do Kosovo
Em seu último trabalho levou uma bala
E agora ele se foi, se foi


Parece que estou me preocupando com besteira enquanto Roma está queimando


Devo deixar minhas besteiras de lado, tirar uma arma do chão?
Preciso do fantasma pra respirar, uma invasão do norte essa noite


Porque estou paralisada, estou paralisada


Peguei os livros dele, deixei o escritório
Fui contar as novidades pra esposa
Ela ficou em choque, o bebê chutou, e derramou uma lágrima dentro do útero


Eu inspiro, eu expiro
Sugo o chão pra cima com meus olhos
É difícil dizer uma palavra pra acalmar
Quando sua língua está paralisada
Parece que estou me preocupando com besteira enquanto Roma está queimando

Devo deixar minhas besteiras de lado, tirar uma arma do chão?
Preciso do fantasma pra respirar, uma invasão do norte essa noite


Porque estou paralisada, estou paralisada

12 de nov de 2011

USP x Extrema Esquerda x Riquinhos x Pobres x Invasão

Talvez o melhor texto sobre os últimos fatos ocorridos na USP.
Por sinal, estou entre os pobres que estudaram na USP. Há riquinhos, há, mas não são todos não.


ÁLVARO PEREIRA JÚNIOR
Calibre 12 no campus da USP
Ao contrário da percepção geral, não são maconheiros exigindo que a USP seja área liberada para Cannabis
Uma profunda ferida geracional foi tocada nesta semana. Quatrocentos PMs, com armamento pesado e até helicóptero, entraram no campus da USP, em São Paulo, para enfrentar 72 alunos desarmados.
A PM cumpria uma ordem judicial de reintegração de posse da reitoria da USP, invadida dias antes por esses alunos. O protesto estudantil foi motivado pela detenção, dentro do campus, de três universitários, no dia 27/10, pela mesma PM, por portarem maconha.
Não foi por acidente que, diante da ação militar, dois contemporâneos meus, André Forastieri e Marcelo Rubens Paiva, foram rapidamente à internet condenar a operação, cada um a seu estilo -Forastieri incendiário, Paiva mais ponderado.
Somos da geração que participou de outra invasão da reitoria, em 1982. E que estudou na USP durante a retomada do movimento estudantil, que havia sido sufocado no período mais duro da ditadura militar.
Ver uma ação policial tão agressiva, dentro da Cidade Universitária, não nos faz bem.
Como também é difícil engolir a tempestade de ofensas contra a USP, disparada nesta semana: antro de riquinhos mimados, filhinhos de papai que querem fumar sua maconha sem sofrer repressão.
O fato: há um enorme ressentimento, em parte da população, contra a USP. É a melhor universidade do país, está entre as 200 melhores do mundo, tem o vestibular mais difícil do Brasil (excluindo ITA e IME, escolas militares de engenharia).
Um monte de gente tenta entrar na USP, sem sucesso. Não é preciso ser a reencarnação de Freud para entender o mecanismo de defesa: "Se eu não passei na Fuvest, é porque não sou filhinho de papai, não estudei numa ótima escola particular: os riquinhos tomaram minha vaga".
Mas será que a USP é mesmo um antro de mimadinhos? Cursei duas faculdades ao mesmo tempo na universidade. Concluí ambas. Era um ambiente de glamour zero. Mais classe média, impossível.
Riquinhos? No Instituto de Química, dos 60 da minha turma, lembro só de uma loirinha toda chique, de sobrenome francês, que nunca me disse nem oi. E do herdeiro de um grande laboratório, pegador, gente boa, meu chapa. Só.
De resto, muita gente de escolas técnicas, vários da zona leste de São Paulo, pessoal simples do interior, um evangélico fervoroso, e também muitos que, ainda na faculdade (que era de período integral) davam aulas à noite para ganhar um dinheiro.
Na faculdade de jornalismo, que cursei à noite, minha melhor amiga morava na Vila Formosa, também da zona leste paulistana, e só estudou em colégio público. Outra colega querida era de uma família simples do litoral paulista.
Segundo o site da Fuvest, 24,5% dos aprovados no ano passado fizeram o ensino médio só em escola pública (estadual, municipal ou federal). É muito menos do que os 69,8 % que estudaram só em particular. Mas, a meu ver, ainda assim muito longe de caracterizar a USP como um ninho de privilegiados.
Em renda familiar, a mesma Fuvest informa que a faixa mais comum, entre os aprovados, é de três a cinco salários mínimos (18,4%). O nível mais alto, acima de 20 salários mínimos, está em quarto lugar, com 13,7%.
Que fique claro: meu apreço por esse invasores da reitoria é nenhum.
Ao contrário da percepção geral, não são maconheiros exigindo que a USP seja declarada área liberada para Cannabis. Como mostrou reportagem de Laura Capriglione e Talita Bedinelli, domingo na Folha, são militantes de grupos de ultraesquerda, habitantes de uma franja tão extrema do espectro político que consideram "de direita" o PSOL e o PSTU.
Maconha, para eles, não é bandeira -foi só um pretexto para bagunçar. Também sei que a representatividade desses invasores é zero. E que entraram na reitoria em desrespeito a uma decisão democrática, tomada em assembleia.
Mas vai uma grande distância entre rejeitar o embotamento ideológico dos invasores e achar que a USP é um valhala de filhinhos de papai, ou aplaudir uma operação militar tão gigantesca dentro de um campus universitário.
A foto de um policial apontando o que parece ser uma calibre 12 para o rosto de um estudante desarmado é uma nódoa na história do Estado de São Paulo. E um ponto baixo no currículo de todos os políticos que estudaram na USP, foram perseguidos pela ditadura militar e hoje aplaudem a ação da PM.

15 de out de 2011

Lembranças da Aldeia de Barueri

Lembranças da Aldeia de Barueri: infância quase toda vivida em balcão de boteco familiar lembra mundo bizarro do filme Peixe Grande do TIM Burton, selecionei alguns dos personagens:

Bastião torto: velho que sofreu derrame e trabalhava como jardineiro.

Home do saco: andava pelo bairro carregando enorme saco de estopa, outro atemorizador de criancinhas.

Pirolau: o maior bêbado do pedaço. Em jogo da seleção tomou um belo de um tapa na fuça do meu pai e continuou rindo sem graça.

Bitelo: anão que quando via uma mulher bonita gritava: ô bitelo ou ô bitela!
 
Gentil: senhor de família que bebia até cair. Várias vezes teve que ser em carrinho de mão para casa, sem contar dias em que a água da chuva o levava até a calçada e ficava ali boiando semi-desmaiado de tanta cachaça!

Cá: negro forte que fazia serviços gerais, como carpir mato, servente de pedreiro em troca de garrafas de pinga. Morreu ao cair de caminhão da prefeitura.

Bodão: jovem vagabundo que estudou comigo. Me fez dar doces e salgados por um ano, ameaçando dizer para minha mãe que eu havia escrito uma cartinha erótica a uma colega de classe (eu tinha uns 12 anos a época).

Loira cega: mulher que uma vez por semana andava pelo bairro e tinha roupa puxada por crianças, que andando em volta dela faziam a festa.

Tiuill: bebum profissional cujo apelido era sinônimo de mentira.

Jacaré: homem que mexia a orelha para horror das crianças do bairro.

Djanira e Carlos: mulher que tinha muitos gatos e seu namorado que viviam bêbados, promovendo verdadeiros shows em praça pública quando brigavam.

A vida era muito divertida.
Ao mesmo tempo, a vida na periferia da periferia era marcada pelos sinais do preconceito, pobreza e vícios.

21 de set de 2011

SP de ontem, hoje e amanhã?

Grafitti na Brigadeiro e uma Verdade em fachada de cantina fechada
Depois de caminhadas à beira-mar na última semana, retornei as caminhadas à beira do mar cinza de São Paulo.


Saí de casa pensando em iniciar a caminhada noturna passando por locais que há tempos não passo.


O primeiro monumento pelo qual passo é o Teatro Municipal, que com sua nova iluminação externa se mostra aos passantes muito mais belo. Sigo pelo Viaduto do Chá e entro na Libero Badaró até chegar ao Largo São Francisco e vislumbrar o belo edifício principal da Faculdade de Direito da USP. Logo me vem a memória o período que compreende o final do século XIX e início do XX, época em que ali se formava a elite paulista e também brasileira, muitos viraram não apenas "doutores", mas também políticos e escritores. Posso citar nomes como Joaquim Nabuco, Fábio Konder, Ulisses Guimarães, Caio Prado Júnior, Plínio de Arruda Sampaio, Álvares de Azevedo, Décio Pignatari, Castro Alves, Mário Chamie, José de Alencar, Hilda Hilst, Monteiro Lobato e até o Luciano Huck e o Michel Temer!!!!
Hoje, os futuros advogados, que dificilmente se destacam ou atuam em outras áreas como antes (para ser mais exato vejo alguns advogados se tornando membros das falidas Academias de Letras, mas instituições falidas aceitam qualquer mané...), saem correndo do prédio com medo dos donos da rua que ocupam os lugares antes ocupados em grandes discussões ou meros saraus literários a dormir, mijar e cagar. Ao menos, os caras vivem em grupo... grupo que corre unido até o metrô ou aos estacionamentos. Mas paro por aqui, afinal, não vou tirar uma dos advogados a essa hora da noite, não é?! E repontuo, tenho amigos advogados e os admiro mas não poderia perder uma oportunidade destas!


Avanço e chego até a Brigadeiro Luís Antônio, onde enfrento aquela doce ladeira até chegar ao final da Major Diogo. Lá de cima olha a escuridão ao fundo e as luzes amareladas e desisto de descer. Sim, o medo sai da espinha e chega ao meu pescoço. Prefiro subir e entrar na Rua Pedroso e sair no começo da Rui Barbosa. Ali avisto o teatro Ágora e me lembro que o ator Celso Frateschi faz parte daquele coletivo... sinto vontade de vomitar, afinal ele foi secretário municipal de cultura e foi um horror, apesar de ter reformado a Galeria Olido e transformado ela em algo legar e um ou outro programa implantado na gestão dele.


Na Rui Barbosa avisto a Travessa dos Arquitetos. Belas casas onde moraria com prazer. Chego na região do Bexiga e presencio a decadência das cantinas, tirando algumas mais famosas como a C... que sabe, Roberto e mais duas que não lembro o nome, a maioria estava praticamente vazia. Sem contar o número incontável de estabelecimentos fechados.
Ao mesmo tempo, vi alguns restaurantes com comida nordestina, bares com nordestinos e pasme, um bar tocando pagode em pleno Bexiga! O mesmo acontece quando chego rua Santo Antônio, no início e no fim dela ainda existem algumas cantinas mas os botecos e pizzarias delivery já são maioria e seus frequentadores também são outros. Quem chegará lá depois dos nordestinos?


Finalmente, chego a Martinho Prado e percebo que ali termina o Nordeste daquela região. Vários prédios relativamente novos destoam dos pequenos prédios e casas do Bexiga e um novo arranha-céu se ergue na esquina. A velha sinagoga está em reforma para virar Museu e ao olhar ao lado vejo uma academia lotada. Não é uma academia tradicional. É uma academia de luta e lá está todo mundo treinando Artes Marciais. A maioria vivendo do modismo chamado MMA/UFC, mas tudo bem, estão se exercitando não é? Espero que muitos não virem "machões" encrenqueiros como os famosos pitbulls da noite carioca. Daquelas pessoas horrorosas que por estarem cheias de músculos querem sair batendo em todo mundo e vomitar asneiras preconceituosas.... 


No resto do caminho, passo por lugares comuns como o Kilt (um amigo me confidenciou que queria ir lá ver como era o castelo medieval por dentro! hahaha), Praça Roosevelt, COPAN e Praça da República para chegar em casa cansado para burro!




18 de set de 2011

Querida Scarlett Johansson



ÁLVARO PEREIRA JÚNIOR

Querida Scarlett


A primeira foto mostra suas formas amplas, assertivas, de voluptuosidade renascentista, digna de Botticelli


Ah, Scarlett, mulher sinestesia, seu nome tem o som da cor dos seus lábios: Scarlett, scarlet, escarlate.
Scarlett, mais que mulher, você é um colosso transcontinental. Nesta semana, por causa de míseras duas fotos, dominou o planeta, parou a internet. Seriam imagens suas nua, feitas por você mesma, roubadas, sabe-se lá como, de um celular.
Quando escrevo, não se sabe se as fotografias são reais. Mas entendo o furor que provocaram: elas entregam, de fato, o que você promete.
Sei que você já viu as imagens, verdadeiras ou não, mas deixe que eu as descreva para quem chegou agora.
Uma delas, tirada em frente a um espelho, a mostra por trás, nua, suas formas amplas, assertivas, de voluptuosidade renascentista, digna de Botticelli, perfeição inatingível.
A segunda é ainda mais provocante: deitada, fotografando a si própria com o seio direito à mostra, a baixa definição da câmera contribuindo para uma espécie de efeito "flou", lábios de negra sobre a pele branca, delicada como papel de arroz.
Ah, Scarlett, por que você provoca tanta sensação? Você tem só 1,62 m, voz levemente esganiçada. Andou meio gorducha e triste na mão do Sean Penn, mas foi só aparecer seca e sarada numa festa para provocar uma onda planetária de protestos masculinos. Fuja da academia, Scarlett. Nós amamos seus excessos. Você tem só 26 anos, uma vida inteira para se cuidar.
Por causa de você, Scarlett, dessa sua mistura de sangue polaco e dinamarquês (e a boca, de onde veio?), assisti ao medonho "Homem de Ferro 2" duas vezes, só para te ver de Viúva Negra. Por sua culpa, estou a ponto de quebrar um jejum autoimposto de Woody Allen, que não me desce, e finalmente encarar "Vicky Cristina Barcelona".
E foi por sua causa, em um longo e tedioso voo diurno, na semana passada, que vi pela ducentésima vez "Lost in Translation", que me recuso a chamar pelo título brasileiro, ridículo, "Encontros e Desencontros".
Ah, Scarlett, todo homem com mais de 40 anos e algum sangue correndo nas veias se identifica com Bob Harris, o personagem de Bill Murray, ator americano ultrapassado, que viaja ao Japão, onde ainda é ídolo, para faturar algum em um comercial de uísque.
E que, no bar do hotel, transtornado pelo fuso horário e pelo tédio, encontra você, na pele de Charlotte, recém-formada em filosofia, sem rumo, escanteada pelo marido, fotógrafo indie-yuppie assexuado, que só tem tempo para si próprio e para as bandas furrecas com as quais trabalha.
Enquanto escrevo, Scarlett, ouço no YouTube você desafinar no palco com o Jesus and Mary Chain no festival Coachella de 2007. Impossivelmente linda, à esquerda do vocalista Jim Reid. Microvestido floral de verão, chapeuzinho para proteger do sol inclemente do deserto e todo o charme do mundo.
Você não precisava fazer quase nada, só dizer "honey" ao finalzinho do refrão. Mas, desculpe, não ficou muito legal. Seu timbre não combinou com a música. Mas quem se importa? A beleza da canção é maior do que os detalhes técnicos. De novo, deixe explicar aos recém-chegados: a canção era "Just Like Honey".
A mesma música da cena final, a melhor de "Lost in Translation", na qual o tiozinho Bob Harris, um tiozinho como eu, devastado por perder Charlotte, ruma de táxi ao aeroporto, vasculhando cada centímetro da Tóquio que está deixando para trás.
De repente, avista uma loirinha como você, de costas, casaco preto, sapatos vermelhos de salto baixo.
Manda parar o carro, desce, vence a multidão de uma rua estreita da megacidade. Chama a jovem. Ela se vira e, contra toda a probabilidade, entre tanta gente, é mesmo Charlotte.
Eles se beijam pela primeira vez, mais carinho que erotismo.
Bob sussurra algo para Charlotte. Os dois se despedem, agora para sempre. Começa a tocar "Just Like Honey" e a cena fica ainda mais bonita.
Bob volta ao carro. Ofegante, um pouco fora de prumo, mas aliviado. E Charlotte (você, Scarlett) segue em sua caminhada. Quase ao sair de quadro, esboça um sorriso. Feliz, confiante, esperança pura, Tóquio a seus pés.
Ainda novato por aqui, comecei a coluna achando que não conseguiria escrever 740 palavras sobre você, Scarlett Johansson. Acabou faltando espaço. Ah, Scarlett.


By Folha de São Paulo, Setembro de 2011

26 de ago de 2011

Era uma rua muito engraçada....

Era uma rua muito engraçada....
A rua não tinha calçada guia, mas tinha calçada.

Era uma sexta-feira 21 horas e pouco
Eu voltava do trabalho rindo à toa
Tinha vista a roda artística para formação de palhaços dos Doutores da Alegria
E alguns e-mails no trabalho.

A rua era a 24 de maio, local de minha moradia.
No começo da rua havia alguns mendigos preparando suas camas.
No meio da rua lá estavam as lojas, restaurantes e bares fechando.

Em frente e dentro da galeria da tal moradia havia uma baderna só:
- Churrasquinho de gato, galinha e linguiça na esquina com a Rua Dom José de Barros
- Montes de lixo e um catador de bagulho com um carrinho (?) gigante diante da Loja Besni ainda aberta (malditos capitalistas!)
- Jovens pais nordestinos e seus filhos jogando futebol
- Mães e namoradas conversando e rindo sentadas na frente das lojas fechadas
- Estudante do SENAC famintos comendo seus lanches antes de voltar para os cursos profissionalizantes
- Uma porção de gente comendo churrasquinho (de carnes estes!) e bebendo
- Outra porção de gente apenas bebendo cerveja, pinga, conhaque e até água!
- Ao fundo um grupo ouvia samba de raiz, por sinal, bem cantado e executado
- Acima, subindo as escadas rolantes, dava para ouvir o forró horroroso...

Chegando ao portão do condomínio o cheiro de porção de frango frito invadiu minhas narinas e a fome bateu.

Resisti a ela, subi ao apartamento e voltei ao meu apartamento vazio.
Percebi que aqui sou como os mendigos do início da rua:
Estou sozinho sem ninguém para cuidar de mim.... aff... que carência! hahaha

22 de ago de 2011

A história de um livro: de Marcos Rey para um sebo!

ARQUIVO ABERTO
MEMÓRIAS QUE VIRAM HISTÓRIAS

Presente atrasado
São Paulo, 1986

Reprodução
Capa do livro de Cheever com que Rey (quase) presenteou Aquino

MARÇAL AQUINO

ERA SEMPRE UM PRAZER imenso conversar sobre literatura com o escritor Marcos Rey (1925-1999), em especial sobre a literatura americana contemporânea, que ele conhecia a fundo. Marcos adorava os grandes: Faulkner, Hemingway, Chandler, Fitzgerald e John Dos Passos, com quem certa vez teve um encontro memorável num bar.
Mas reservava um carinho apaixonado aos menos conhecidos, nem por isso menores, caso, por exemplo, do atormentado Cornell Woolrich, o escritor de livros policiais mais adaptado pelo cinema -é dele a matriz de filmes como "Janela Indiscreta", de Hitchcock, e "A Noiva Estava de Preto", de Truffaut.
Foi Marcos Rey quem me mostrou como era injusto Horace McCoy ser admirado apenas por "Mas Não se Matam Cavalos?", pois tinha escrito outros romances tão bons ou até melhores do que o livro que lhe trouxe seus 15 minutos de fama, ao ser levado ao cinema como "A Noite dos Desesperados".
Natural, portanto, que eu recorresse a ele na tentativa de esclarecer a dúvida surgida quando foi publicada no Brasil, em 1986, a novela "Até Parece o Paraíso", de John Cheever. Afinal, aquela era ou não a primeira vez que Cheever saía por aqui? Havia controvérsias.
No posfácio da edição (Companhia das Letras), o jornalista Sérgio Augusto abordava a questão, sem elucidá-la: "Não faz muito tempo, alguém me disse que haviam traduzido entre nós o seu romance de estreia, "The Wapshot Chronicle", publicado nos EUA em 1957. Por qual editora brasileira não consegui descobrir, sequer junto a um dos maiores admiradores que Cheever conquistou nestas paragens, [...] Rubem Fonseca".
Marcos foi categórico: "'A Crônica dos Wapshot'? Esse romance saiu aqui, sim, por uma editora carioca, no final dos anos 60". O problema, explicou, é que a editora fechou logo em seguida, e o livro nem foi distribuído direito. Com sua habitual generosidade, acrescentou: "Tenho um exemplar. Passe lá em casa qualquer hora que te dou de presente". E finalizou: "De qualquer forma, não é grande coisa". Como muitos críticos, ele achava que John Cheever era melhor contista do que romancista.
É claro que, na primeira oportunidade em que estive no apartamento dele, cobrei a oferta. Marcos me olhou com pesar. Contou que emprestara o livro ao irmão, o também escritor Mario Donato, morto meses antes. Acontece que a viúva tinha vendido a biblioteca de Mario -e junto se foi o raro exemplar. Deve ter sido minha cara de incrédulo que o levou a garantir: "Acredite: o livro existe, comprei num sebo.
Lembro até que tem o nome de uma mulher na folha de rosto. O autógrafo da primeira dona".
Acho que foi ali que "A Crônica dos Wapshot" começou a assumir, para mim, névoas de lenda.
O tempo passou, outras obras de Cheever foram lançadas no Brasil, Marcos Rey se foi. Continuei com o costume de perguntar pelo romance em todos os sebos em que entrava. Nunca consegui confirmar que tivesse saído por aqui.
Até que um dia, muitos anos depois, recebi uma ligação de um velho alfarrabista do Centro, que me informou ter encontrado "aquele" livro que eu tanto procurava. Na verdade, nem me lembrava mais do assunto. "'A Crônica dos Wapshot'", o homem esclareceu. "Um exemplar em excelente estado. Parece novo", ele acrescentou, como que me preparando para o preço absurdo que iria cobrar. Em sua retórica de convencimento, o alfarrabista chegou a mencionar alguém mais interessado na obra.
Interrompi o que estava fazendo e fui até a loja. Mas só acreditei quando peguei e manuseei o livro.
Sim, ele existia. E estava mesmo em ótimo estado. Nem preciso dizer que, na folha de rosto, encontrei o nome de uma mulher. Era o exemplar que fora do grande Marcos Rey. Um presente que me dera e que, por essas tramas tão fabulosas do destino, levou anos até chegar às minhas mãos.


Roubado da Folha de São Paulo de domingo, dia 21/08/2011

21 de ago de 2011

Voar, navegar e nas trevas ver a luz

Para onde poderia fugir da tua presença?
Se eu subir aos céus, lá estas;
se eu fizer a minha cama na sepultura, também lá estás.
Se eu subir com as asas da alvorada e morar na extremidade do mar,
mesmo ali a tua mão direita me guiará e me susterá.
Mesmo que eu diga que as trevas me encobrirão, e que a luz se tornará noite ao meu redor,
verei que nem as trevas são escuras para ti.
A noite brilhará como o dia, pois para ti as trevas são luz.
Salmo 139: 7b-12


Engraçado como algumas coisas, no caso agora um texto, que nos parecem já conhecidos, quando reencontrados e reanalisados se tornam uma novidade. Causou-me estranhamento, e porque não um maravilhamento, texto tão poético.
Alguém pode me dizer que graças a tecnologia de hoje qualquer um pode subir ao céu, ao mais alto céu, ou mesmo chegar às extremidades do mar. Também podemos enxergar graças a aparelhos especiais tudo como luz em meio à escuridão.
Mas me maravilho mesmo com a visão ou inspiração que fez escreverem tal texto vislumbrando coisas para o período impossíveis e quero imaginar e poder ir a tais lugares sem tanta tecnologia e sem tanta magia, apenas navegando, andando ou usando a imaginação.



18 de ago de 2011

Sérgio Vaz: Literatura, pão e poesia

A periferia nunca esteve tão violenta, pelas manhãs é comum ver, nos ônibus, homens e mulheres segurando armas de até 400 páginas. Jovens traficando contos, adultos, romances. Os mais desesperados, cheirando crônicas sem parar. Outro dia um cara enrolou um soneto bem na frente da minha filha. Dei-lhe um acróstico bem forte na cara. Ficou a rima quebrada por uma semana.
A criançada está muito louca de história infantil. Umas já estão tão viciadas, que, apesar de tudo e de todos, querem ir para as universidades. Viu, quem mandou esconder ela da gente, agora a gente quer tudo de uma vez.

Trecho de artigo do poeta e fundador da Cooperifa na revista Caros Amigos de agosto de 2011.
Vale a pena ler o artigo inteiro, vá comprar a revista!

W.

14 de ago de 2011

Emendas parlamentares e corrupção

Nem sempre concordo com o Jânio, mas sua análise deixa claro um dos problemas a enfrentar para diminuir a corrupção. Quem vai carregar essa arca e diminuir o poder excessivo da corja q vive na Câmara, Senado, Executivo e Judiciário?
Só o povo acordando e cobrando!
JANIO DE FREITAS
Emendas sem emenda




Qualquer correção nesse sistema dependeria de seus próprios beneficiários no Congresso


NADA A FAZER - eis a forçosa constatação a respeito de certo tipo de corrupção alta em valor e em localização, e só incomodada por eventualidades raras e superficiais. É o caso dos sempre crescentes bilhões que deputados e senadores dividem entre múltiplas destinações à escolha de cada um, sob o rótulo de "emendas parlamentares" ao Orçamento nacional.
O poder de corrupção dessas emendas, dentro e fora da Câmara e do Senado, ficou demonstrado, há mais de 20 anos, no maior de todos os escândalos na história parlamentar brasileira, batizado de "Anões do Orçamento". Era a descoberta de bandalheiras com o dinheiro de emendas em proveito dos próprios proponentes do montante e da aparente destinação. Com bastante propriedade, a descoberta foi facilitada pelas revelações de um criminoso, assassino, que fora eficiente assessor da Comissão de Orçamento.
As consequências da CPI foram os afastamentos, por cassação de mandato e por vontade própria, de uns poucos deputados, a partir de um relatório suspeitamente caótico, feito da noite para o dia. E do qual vários implicados foram salvos por simples pedido, como se deu com Geddel Vieira Lima, que veio a ser ministro de Lula, salvo da degola naquela ocasião a pedido de Luiz Eduardo Magalhães. A evidência da roubalheira de dinheiro público não foi suficiente para levar seus beneficiários à cadeia. Nem para devolver o embolsado. Mas o pior nem estava aí. Foi a inconsequência para as regras das emendas, preservadas na vulnerabilidade obviamente mal intencionada.
Agora, a desconhecida deputada peemedebista Fátima Pelaes aparece como autora da destinação, por emendas ao Orçamento, de mais de R$ 4,4 milhões para formação de 1.900 servidores em turismo no Amapá, onde não há turismo. É certo que o dinheiro não chegou à finalidade alegada. Como é sabido que a deputada se vê acusada de receber boa parte do dinheiro de suas emendas, entregue pelos pretensos prestadores do serviço inexistente, pago com o dinheiro da emenda. Fátima Pelaes nega, como de praxe, e de fato a acusação ainda não foi investigada, mas nem por isso fica diminuída a utilidade do caso como exemplo.
Não há, mesmo, exigência alguma para fundamentar uma emenda. Tanto faz se o parlamentar propõe verba para construção de uma ponte, de uma estrada, ou meia dúzia de milhões a pretexto de formar um punhado de técnicos em lavagem de copos. Concedida a verba, são ínfimas as probabilidades de que seu destino verdadeiro e completo fique ao alcance de alguma fiscalização. Idem quanto à possível partilha.
Mesmo a utilidade reconhecida de uma emenda é incapaz de indicar a correção de seu uso. As empreiteiras de obras públicas, por exemplo, exercem grande influência na apresentação de emendas parlamentares. Nem seria preciso dizer que os autores das emendas comandadas vão receber parte das verbas liberadas para as obras, mesmo que úteis. Assim também com inúmeras outras finalidades.
A tão falada insubordinação da "base aliada" é uma onda devida, sobretudo, à retenção de verbas pretendidas por parlamentares para suas emendas. Da parte do governo, há o propalado esforço para contenção de gastos, contra a inflação. Entre, porém, a inflação e os cuidados com a crise internacional, de um lado, e de outro a verba da sua emenda, a escolha do parlamentar até antecede o dilema.
Diante disso, o que faz o incumbido de conter, em nome do governo, represálias nas votações da Câmara e do Senado? Ministra de tal tarefa, Ideli Salvatti reivindica R$ 1 bilhão para emendas de deputados e senadores. Alimenta, é a regra, o sistema que se volta contra o governo e, sobretudo, contra a moralidade das relações institucionais e das práticas políticas.
Emendas, por si mesmas, são instrumento para servir a necessidades localizadas da população, por intermédio do serviço dos parlamentares ao seu eleitorado. Na prática, sem dúvida há emendas assim, na Câmara e no Senado, mas é para lá de duvidoso que formem, ao menos, um número razoável. A emenda turística do Amapá não tem originalidade alguma no conjunto das emendas. Mas não há o que fazer a respeito: qualquer correção nesse sistema dependeria de deliberação dos próprios beneficiários no Congresso. A Constituição Cidadã não prevê meio algum que permita à sociedade sobrepor-se ao poder dos deputados e senadores em privilegiar-se, mesmo que no pior sentido.

12 de ago de 2011

Passeio VIP: a velha São Paulo resiste!

Sexta-feira, dia de comemoração!

Ainda no trabalho consigo não sucumbir ao ficar mais uma noite lendo e respondendo e-mails antes da chegada do final de semana. Saio e vou com um colega de trabalho atrás de hambúrguer. Passamos no Shopping Light e nada. Lembro-me do já famoso Sujinho Burguer e pegamos um ônibus até o meio da Rua da Consolação. Que maravilha é comer ali. Quando ia utilizar o cartão de crédito para pagar, sou lembrado que a casa só aceita pagamento em dinheiro. E lá vou eu atrás de um Itaú ou Banco do Brasil. Quando se quer, os bancos malditos não aparecem!

Chego em casa e minha irmã pede minha ajuda para levar umas mochilas pesadas até o ponto de ônibus. Na saída ela lembra que quer comer um CBO (novo lanche do Mc Donalds). Aceito acompanhá-la e lá vamos.
Na esquina da rua 24 de maio com a avenida Ipiranga nos deparamos com um garoto de uns 12 anos encostado em uma porta de aço choramingando: eu não quero dinheiro não... não... quero comer...
Não consigo passar sem parar e pergunto o que aconteceu. Ele chora: pedi para comer e a mulher pediu para ir procurar minha mãe... mas não tenho mãe, não tenho pai, não tenho ninguém! Ao final o levamos até o Mc lotado! Parece-me que as pessoas andam cheias de grana.

Já no ponto de ônibus, esperamos quase 20 minutos um ônibus, deixo minha irmã e me volto para retornar ao apartamento. Sinto-me pesado e decido dar uma volta no quarteirão.

A volta ao quarteirão vira um longo passeio VIP!

Atravesso a São João com a Ipiranga e me deparo com mais um local lotado. É o Bar Brahma.
Avanço e antes de chegar na Rio Branco vejo o garoto comendo com outros em um beco. É o primeiro beco  dos resistentes do Crack.
Entro na Rio Branco e sinto o cheiro de maconha pela primeira vez. Viro pela Vitória e sigo pelas a essa hora desertas Santa Efigênia, Andradas e Triunfo.

Ao chegar próximo ao Centro Tom Jobim de música noto mais bares lotados com gente moderninha e logo em frente à Estação Pinacoteca vejo mais um foco de resistência do Crack com umas 20 pessoas fumando e negociando os blocos. Olho para o belo prédio da Estação Pinacoteca e leio um banner: Memorial da Resistência. Tudo a ver....

Avanço pela calçada da Estação Pinacoteca e chego à Sala São Paulo, como sempre impávida e bela, com garotos a jogar futebol e outros apenas a correr e namorar. Também há casais bêbados discutindo logo ali.

Em volta da praça, diante da Sala SP há cerca de 20 taxis aguardando o final do espetáculo.
Mas o que me chama a atenção é o espetáculo do outro lado da rua. Mais uma vez me espanto, mais uma vez vejo centenas de seres humanos e vários focos de fogo e luz. É a luz do Crack iluminando os que vivem nas trevas. Sinto medo e penso em retroceder, mas como sou um grande insensato adentro pela porta larga da rua.....

Uma parada para uma explicação: depois de sair do Mc Donalds já estava sem um tostão, sem carteira, sem celular, apenas com a chave de casa e o RG, além de estar utilizando roupas velhas. Devia me parecer com um deles, sinceramente.

Ao entrar na rua Helvétia, atual local de concentração dos exércitos da resistência do Crack sinto vários odores característicos: de maconha, de suor, de cocô e mijo que até sinto vontade de vomitar, mas continuo mesmo assim.

O velho e nobre bairro dos Campos Elíseos está em festa: um motoqueiro burguês entra com tudo e compra seu bloco; um grupo toca samba batendo em cestos de lixo; meninos e meninas encostados nos muros cheiram cola, fumam e trocam cigarros; alguns que me parecem mais sãos ficam com dinheiro na mão; evangélicos gritam avisando que chegou a sopa; três ou quatro bares com suas estantes repletas de bebidas alcóolicas tocam funk ou forró; um homem e duas mulheres empurram um carrinho de mão com um colhão de casal.....

Depois de andar dois quarteirões caóticos chego ao Largo do Sagrado Coração de Jesus e a bela igreja de mesmo nome. Ao alto, Jesus e seu coração vermelho ilumina a escuridão da noite. Se não fosse uma escultura eu poderia dizer ou ler que: JESUS CHOROU. Incomodado com a situação volto para a avenida Rio Branco passando pelo Terminal Rodoviário Princesa Isabel e pela fedorenta praça Duque de Caxias.

Ao atravessar a avenida Duque de Caxias e cruzar com a rua General Osório, mais uma cena de resistência: vejo umas cinco ou seis mulheres pelas calçadas. A primeira delas se aproxima e oferece: vem me conhecer, vem... Quanto? Pergunto. R$30,00 completinho amor.... Desejo boa noite e continuo pela avenida Rio Branco....

Me sentindo cansado, triste e arrasado não vejo a hora de chegar em casa, mas ainda tinha que passar pelo trecho da Rio Branco repleta de nigerianos a beber, o trecho da rua Aurora com migrantes nordestinos a beber e pelo Bar Brahma cheio de burgueses e estrangeiros a beber...

2 de ago de 2011

Coração de estrelas

Hoje encontrei mais um pedaço de coração.


Pisado, solitário, estava caído no chão.


Mas não ligo não.


Sempre os atiro longe pela janela.




Imagino que um dia você minha hoje desconhecida e querida amada.


Desesperada e solitária olhará para o céu e verá pequenas estrelas a se juntar.


Ali encontrará a constelação do meu coração.


Ela te guiará até o fim dos meus sonhos.


Pois, acordados, nos encontraremos e juntos sonharemos.




Essas poesias melosas de antigamente sempre sonham em retornar.....
William - 02/08/2011 - 00:00